Rodoviária como lar: a epopeia de sobreviver

Os pés protegidos, o corpo à solta. Banhos no Parque da Cidade e no sanitário da rodoviária do centro de Brasília. A Rússia parece longe, mas é nítida. Na chácara em Goiás, aqui do lado, e que se turva por nuvens. Presos pelo sistema, falsamente livres por entrequadras quando perambulam. Essa é a condição de dois moradores de rua encontrados na rodoviária em um dia qualquer. Uma história sobre Luiz, de 64 anos, e Anderson, de 19.

Caminhei pelo terminal em busca de um desabrigado. Encontrei uma mulher transtornada com um vestido de sacos de lixo e conversando com o vento quente da seca. O clima do cerrado mastiga os dentes de calor e a procura permanece No outro lado da via do Eixo Monumental, meus olhos cercaram um homem. Aproximei-me educadamente e perguntei se poderia me sentar ao seu lado. O senhor, de 64 anos, pegou a folha de papel que lia e botou em cima de seu papelão, me indicando qual seria o meu lugar. Pensei na hora sobre franqueza e humildade.

Desde os 15 anos, ele não mora com os pais. Nascido em Uberlândia (MG), saiu de casa “cedo” e começou a trabalhar. Pintor, eletricista e vaqueiro ele faz bem. Mexeu com “muita coisa” quando as condições eram melhores. Um incidente em Goiânia o obrigou a fazer uma cirurgia para não ficar cego do olho esquerdo. Durante o tratamento o nervo óptico inchou e a visão se transformou em “um dia nublado”, conforme relata. Um motociclista levou uma pedra ao seu globo ocular ao acelerar. Também foi diagnosticado com catarata e glaucoma nos dois olhos, praticamente perdendo a visão do olho direito. “Eu sei fazer muita coisa, sou muito bom. Mas nessas condições, sem enxergar, ninguém quer me contratar.”

O homem ainda conta que era para estar recebendo aposentadoria do INSS. Teria resultados de exames comprovando a deficiência tanto no Hospital Brasília quanto do Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), entretanto, outros moradores de rua teriam roubado as coisas e perdeu os papéis. Luiz Marques da Silva é seu nome. Nome bastante comum. Ele poderia ser qualquer um. Na verdade, pensando bem, para o estado e para os outros é quase isso mesmo o que ele é. Só mais um.

Ele recebe o auxílio Bolsa Família, apesar de ser o único. Mas contra o relógio, a greve na Caixa ainda não terminou e não foi possível sacar os seus R$ 77 mensais. Há quatro dias sem pingar o colírio nos olhos — a visão mais embaçada que vidro de carro na chuva — esperava sentado sem muita esperança. Para Luiz, só precisava de um emprego em uma fazenda ou numa chácara em Goiás. Uma vida simples de um morador do interior…

Diferente do morador de rua Anderson Marcolini, 19, recém chegado a Brasília. Veio de São Paulo atrás do concurso do Sesc para dançarinos de balé clássico, datado para novembro. Ainda jovem, tem uma grande quantidade de sonhos. O maior deles é conseguir uma bolsa de estudos para bailarinos na Rússia. A paixão pela dança se iniciou nove anos atrás, quando foi aberto um grupo na escola que estudava, em Pernambuco. Era um morador de rua homossexual, os cabelos tingidos de roxo, com o sonho de se tornar um dançarino de pernas longas e performáticas.

Há três anos, a mãe dele faleceu e teve que ir à condição de procurar abrigo no desabrigado. “Eu nunca peço dinheiro, peço mais um biscoito ou um pastel. Um sabonete também ou um desodorante. As pessoas são bastante solidárias, sempre me compram.”, recorda o morador de rua que toma banho nos sanitários da rodoviária pela noite quando ocorre a lavagem do banheiro — a única hora em que é permitido se limpar nas pias pelo enorme fluxo do local. Ele chegou à capital há oito dias. O corpo magro e a pele flácida um pouco anêmica. “Nem sei mais o que é feijão na minha vida”.

Luiz toma banho nas fontes do Parque da Cidade, como vários outros. Ele conta que tenta manter a higiene regular, mas às vezes não é possível. Um dos maiores motivos para se limpar é para pegar o ônibus para o Núcleo Bandeirante tentar catar latinhas quando consegue enxergar. Perguntei se os motoristas não o permitem entrar sujo, e ele me disse: “ah, eles até deixam. Mas mal cheiroso não dá, as pessoas ficam incomodadas. Não gosto disso; não me sinto bem.” Eu o ouvia com os ouvidos abertos e exercendo a educação de sentar no papel em que me pediu; o educado perambulante demonstrou que não queria que eu me sujasse. Com a barba branca por fazer, trajava roupas sociais, iguais a seus sapatos sem graxa e sem vida. Era um completo cavalheiro.

Há quem pense que todo mendigo é viciado em algo. Trouxe essa questão à conversa. Mostrei-me alguém em quem podiam confiar e disse que não haveria problema em nenhuma resposta — não era sobre certo e errado, era sobre a realidade. O único vício é o tabaco. Ele adora fumar um cigarrinho, mas não tem dinheiro para comprar e estava há alguns dias sem movimentar os pulmões com fumaça. Quando o jovem de 19 anos foi submerso nessa pergunta, disse que não usava nada, pois tinha medo de se afundar como os outros. Os novos conhecidos de Marcolini inalavam tíner, um solvente para tintas e vernizes com poder alucinógeno.

O que os dois fariam se tivessem R$100 no bolso? Luiz me disse que a primeira coisa que faria seria correr para uma farmácia e comprar o bendito colírio. O olho vinha ardendo mais do que nunca e a visão cada vez mais “nublada” se tornava. Depois tomaria um lanche e iria se banhar no parque, raspando os dedos na parede também para cortar as unhas. Mais tarde o almoço e por último compraria uma passagem para Goiânia. Lá, procuraria um hospital chamado Santa Casa de Misericórdia, conveniado com o SUS e com um bom espaço para tratamento oftalmológico. Precisava fazer uma cirurgia para a catarata e cuidar para reduzir a pressão ocular no caso do glaucoma, fosse com remédios, fosse com cirurgia. O homem de idade era um cego ambulante temendo por suas últimas roupas e documentos. As carteiras de identidade e de trabalho estavam em excelente estado.

Quando essa pergunta chegou ao pés da orelha do jovem de 19 anos, seus olhos brilharam. Talvez ele nunca ouviu falar sobre o poder da quantia de R$100. Disse que primeiro compraria um lanche decente. Depois iria ao Shopping comprar roupas novas e um pouco de comida. E se sobrasse algo, iria ao cinema.