Vitor Barradas
Aug 25, 2017 · 4 min read

Ensaio sobre o meio musical e a teoria marxista.

Em Marx, tem-se, sobre a “teoria”, que a mesma necessita advir de uma profunda análise sobre o objeto de que se trata, de forma a chegar-se em uma conclusão alicerçada e nada superficial. Não se pode produzir uma teoria – ou mesmo uma comprovação – por meio de uma análise imediata, em que prescinda a abstração natural ao método, e que não haja a profunda imersão do sujeito que analisa em seu objeto analisado.

Karl Marx utilizava tal método para estudar o seu principal ponto de partida, a sociedade burguesa, embora não seja essa a única possibilidade.

Em Música, desde algum momento do século passado, mas mais forte atualmente, nota-se que muito cedo qualquer ouvinte rotula alguma canção de “boa” ou “ruim”, imediatamente após ouvi-la ou mesmo antes de acabar. Se fosse fácil assim, os críticos e teóricos musicais estariam desempregados, e músicos antigos muito valorizados hoje não teriam razão de ser.

Muito frequentemente, se relativiza a qualidade de uma composição ou de um artista, de forma a subjugar seu talento, sua criatividade ou seus anos de possíveis estudos a uma simples opinião de quem sequer entende algo sobre o tema. Adaptando o método marxista a essa esfera, é inevitável que se caia numa analogia: assim como para conhecer a sociedade burguesa (objeto de estudo de marx) ele minuciosamente a estudou, a fim de conhecer a sua essência, e não limitar-se a sua aparência, um ouvinte deveria estudar, ou analisar de forma mais crítica e categórica – ou mesmo admitir que não possui tal senso – uma canção, para, por fim, exprimir seu juízo.

Dessa forma, chega-se a duas oposições que, embora tenham tido seus sentidos misturados e esvaziados, expressam ideias diferentes: a oposição bom e ruim; e a oposição legal e chato.

Não há, para mim, restrição quanto à classificação de alguma música em legal ou chata. Tal julgamento vem justamente de uma ideia imediata e sensitiva, superficial, e por isso, extremamente particular e subjetiva. E por ser subjetiva, e não pautada em critérios mais estruturais de uma crítica, não é interessante sua discussão.

Por outro lado, ao se chamar alguma canção de boa ou ruim, empregam-se termos que necessitam de uma justificação, que não pode ser, de forma alguma, sustentada por subjetividades ou pessoalidades, já que se deve levar em conta aspectos como o talento do criador, sua criatividade, aspectos até mais imediatos, como a sonoridade de cada instrumento, a voz (se for uma música cantada), aspectos mais técnicos, como as linhas melódicas, os compassos, os acordes dissonantes (na bossa nova), enfim, aspectos que variem de acordo com seu gênero.

Diante disso, é cômico – e, no entanto, real – que possam existir obras simultaneamente legais e ruins, ou boas e chatas, já que um não depende do outro para ser. Vejam o rock progressivo, de músicos extraordinários e de muita influência erudita, permeado de compassos bizarros e melodias atonais ou até politonais. Os melhores músicos que existiam na década de 70 tocavam em bandas progressivas, que além de sua complexidade e qualidade, também podiam ser extremamente performáticas e teatrais em seus shows. Observe o ícone Peter Gabriel (vocalista do Genesis) com um de seus trajes, em 1972:

Ou veja então o maior tecladista que já existiu no rock progressivo, Rick Wakeman (Yes). Veja como era teatral a sua roupa, e como, além de musical, as obras eram extremamente cênicas.

E apesar de ser um gênero incrivelmente criativo e erudito, se suas canções de mais de 20 minutos, repletas de sons estranhos, compassos nada usuais e seus sintetizadores fossem ouvidas hoje, por um jovem qualquer, seriam tachadas de péssimas e desvalorizadas. É justo? Correto? Para mim, não. O talento do mago Wakeman e de outras lendas, como Keith Emerson (ELP), Neil Peart (Rush), Jon Lord (Deep Purple), Thijs Van Leer (Focus) ou Ian Anderson (Jethro Tull) depende apenas de si mesmo, e de sua existência incontestável, e não da opinião de ninguém.

Como meu objetivo não é falar e falar sobre gêneros musicais, não vou me estender demais. O recado foi dado, e esse papo do bom/ruim, legal/chato foi elucidado, creio. Era apenas uma questão que muito me ocupava a cabeça e que enfim eu pude expressar. Só há ainda mais uma questão a responder, e essa eu deixo para os entendidos das outras artes: essa ideia exposta se aplica além da música, ao cinema, ao teatro, à pintura?

Obrigado.

OBS: não citei artistas brasileiros pelo fato de o gênero mencionado ser mais popular e mais desenvolvido na inglaterra. No entanto, existiram por aqui grandes bandas de rock progressivo, como Casa das Máquinas, Moto Perpétuo, Bixo da Seda, Flaviola e o Bando do Sol, Ave Sangria, entre várias outras.

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    Vitor Barradas

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