Maria, eu te respeito
Ela é divertida, inteligente, tem 18 anos, se chama Maria e é nossa melhor amiga.
Sempre foi nós três, unidos, com muita risada, uma amizade de infância que durou anos, mas nesse ponto que estamos agora eu não consigo mais. E meus sentimentos ainda incertos por você estavam atrapalhando a sua relação.
Eu lembro que a gente tinha um costume de fazer uma confissão sobre algum fato da nossa vida caso fosse necessário para acabar com uma angústia ou simplesmente nos acalmar e ouvir conselhos. A gente revezava a hora da fala, por que as vezes eram muitos problemas. A primeira a confessar sempre era Maria e dessa vez não foi diferente:
— Minha situação em casa não está nada fácil, todo dia meus pais me cobram uma mudança de vida, acabam brigando por motivos que nem eles sabem, além de me sentir culpada pelas lágrimas que enxugo da minha irmã ao mentir para ela dizendo que vai ficar tudo bem — desabafou em meio a soluços.
Nós a abraçamos e dissemos que sempre poderia contar com aquele trio para colocar para fora o que quisesse, que ela não deveria se culpar por uma coisa que não estava nas mãos dela e que ela era uma irmã maravilhosa só por cuidar de Vitória.
Logo depois foi sua vez, você olhou para mim e Maria, nessa ordem, me perguntei no que era que você tanto pensava e não falava, até que você se virou na minha direção e disse
— Preciso de coragem para isso, vai você primeiro.
Fiquei confuso por que você é sempre o mais “animado” para se abrir, mas preferi seguir do que questionar, tinha medo dos seus motivos. Então falei:
— Bom…eu estou apaixonado. Claro que seria algo positivo, mas eu não sei se ele corresponde ao que eu sinto — falei olhando em sua direção, mas você estava de cabeça baixa, só Maria percebeu meu direcionamento — e não quero estragar o que temos agora, por isso estou evitando o assunto ao máximo e meio distante.
Eu não ia falar dos meus sentimentos por você agora, queria que fosse uma coisa nossa, um momento sem Maria, não queria passar vergonha caso não fosse recíproco, mas o que estava por vir foi pior.
Maria foi muito gentil como sempre e fez questão de me encorajar, me deu força para me abrir e disse que se não desse certo teria o amor de vocês dois, me abraçou e sussurou: — Fala para ele agora — ela entendeu o que eu estava dizendo e um sorriso se abriu no meu rosto, ela era incrível, agradeci pelo apoio. Me virei para você e vi sua cabeça assentir seguido de um abraço morno, parecia culpado naquele momento, então fiquei na minha, realmente não era a hora. Quando chegou sua vez de falar, não queria estar ali:
— Eu estou querendo falar isso a um tempo, mas sempre adiava e decidi no início do mês que ia esperar nossa reunião para falar com os dois de uma vez — seus olhos se viraram para Maria e eu estava assustado com o que poderia estar por vir, eu não podia acreditar que evitei tanto isso para ao invés de ouvir de sua boca um “não sinto o mesmo”, vou escutar um doloroso “eu gosto de outra pessoa” — Maria, eu sou apaixonado por você desde que éramos crianças, sofri ao te ver ficando com outros garotos nas festas e sem olhar para mim, mas esse é o momento de te dizer o quanto sua presença me faz bem e de saber o que você sente por mim.
Petrifiquei, meus olhos marejaram, só senti a visão pesada de Maria na minha direção e a voz dela embargada dizendo para mim:
— Desculpa.
