O que nos falta?

No começo dos tempos, os homens eram seres completos, de duas cabeças, quatro pernas e quatro braços, tão fortes e ágeis que decidiram subir aos céus para desafiar os deuses e tomar seus lugares. Contudo, o esforço foi em vão e os homens acabaram sendo derrotados. Como punição, Zeus decidiu castiga-los, dividindo-os todos ao meio e costurando-os no umbigo para que nunca mais se esquecessem deste momento de cisão. Assim, os homens desceram de volta a terra e, desde então, procuram incessantemente a sua outra metade primordial.

O mito da alma gêmea, descrito por Platão no livro O Banquete, ainda segue latente na nossa cultura e reverbera em cada filme, novela ou livro romântico. Numa leitura mais profunda, fica claro, contudo, que o mito descreve um fenômeno muito mais comum: a busca por aquilo que nos completa. Afinal, falta algo, não falta? Sim, falta. Vamos lá, é um processo de aceitação: falta, ou pelo menos, “não é suficiente”. Sempre faltou e sempre faltará. E essa busca por aquilo que não temos e que desejamos ter é parte fundamental do que nos constitui.

Se alguém perguntar “o que você busca na vida?”, a resposta mais óbvia e que você provavelmente daria é “ser feliz”. Contudo, se essa for mesmo a resposta para nossa finalidade de existência, estamos falhando. Falhando feio até. Acordar cedo é um saco, pagar contas é um sacrilégio, as infinitas reuniões de trabalho nos entediam, o trânsito das cidades nos estressam, as obrigações sociais nos aborrecem, as decepções emocionais são constantes e os sonhos parecem de alguma forma distantes, sempre.

Para nossa sorte, a nossa meta de vida, o porquê de estarmos vivos, não está necessariamente em uma jornada para a felicidade, pois esta é, na verdade, o resultado de um processo, sendo a busca pelo objeto perdido o verdadeiro propósito disso tudo que chamamos de vida. Isso significa que a felicidade é uma forma de enxergar esse objeto, como um óculos ou filtro que aplicamos em uma foto.

Às vezes, o que buscamos é atenção, não felicidade. Atenção disfarçada de uma obra de arte ou de um post de Facebook. Outras vezes, buscamos o afeto, disfarçado de um almoço familiar de domingo ou de um pedido de casamento. Ou quem sabe até buscamos um pouco de tristeza, ao preferir um filme que sabemos que é triste. Não importa de que forma o objeto se traveste, o que importa aqui é entender que buscamos por algo que, claro, não temos e desejamos ter.

O problema é que isso é muito bonito na teoria, mas muito difícil de enxergar na prática, justamente porque a falta é esmagadora para a maioria de nós e, assim, nossa psique entra em jogo e começa a atuar num gigantesco novelo de lã intrincado, como um fone de ouvido absurdamente enrolado que nos dá preguiça só de pensar em arrumar. Entram aí as nossas fantasias, nossos desejos, nossos traumas e decepções, nossos medos. Cada qual com seu papel, de forma mais ou menos importante, mais ou menos complexa.

Contam as histórias de bastidores que Amy Winehouse, ao ganhar seu primeiro Grammy, ficou extremamente emocionada e incrédula com o feito. Porém, confidenciou a uma de suas amigas que “aquilo tudo era muito chato sem as drogas”. A verdade é que, apesar da premiação lhe fazer muito feliz, o seu objeto desejado naquele instante não era aquele. O que lhe faltava não era o desejo de ser reconhecida, mas sim o prazer imediato de algum ilícito.

As drogas, lícitas ou não, são perigosas justamente por isso: elas imergem do nosso complexo novelo de lã como uma solução rápida, um objeto palpável para cobrir nossa falta neurótica. Além disso, elas também possuem um alto poder de nos fazer desligar do nosso novelo: não só são a solução disponível para o problema da incompletude, como também nos fazem esquecer que um dia o problema existiu. Tóxicas até em seu lado mais subjetivo, viciam porque se mostram como a única solução, o único filtro disponível para o nosso objeto faltante.

Para aqueles não viciados, exitem diversas formas de lidar com essa falta e cada uma dessas formas nos é importante para a saúde mental. Nos tornamos, de certa forma, escravos delas, porque nos abrem a possibilidade da falsa sensação de completude. Seja a alma gêmea, seja o carro do ano, seja o emprego dos sonhos, seja morar numa praia desértica, seja no melhor café da manhã da sua vida.

Fugir dessas falsas sensações não é uma saída inteligente, porque é isso que nos faz levantar da cama de manhã. Mesmo que de fato não nos tornemos completos como desejamos, acreditar nessa busca é o nosso combustível psíquico. Aqueles que acreditam realmente que a falta não existe para eles (pessoas extremamente good vibes ou os budistas) costumam utilizar a negação como forma de satisfação; curam a sensação de incompletude negando que são incompletos.

Para a maioria de nós, podemos no máximo nos tornar autoconscientes para fazermos escolhas melhores e nos tornar menos subjugados a objetos finitos ou tóxicos. Podemos ser sinceros sobre nossos sentimentos nas nossas relações. Podemos aceitar e interpretar os nossos desejos para nos tornarmos nem muito alienados, nem muito niilistas. Podemos escolher melhor os motivos que nos fazem levantar da cama. Podemos escolher não acreditar na felicidade absoluta para que só então, no processo, possamos ser felizes.