Sobremesa antes de mais nada
Não existe um serzinho nesta vida que não tenha sido educado para comer sobremesa somente depois do prato principal. O ritual é simples e claro: primeiro entrada, quando houver, daí prato principal e só depois a sobremesa. É assim que é e é assim que parece que sempre foi. Eu lembro de quando era pequeno que às vezes me pegava pensando sobre quem inventou essa sequência sagrada e de tamanha consensualidade – acho que o brasileiro nunca concordou tanto em algo como concorda na execução desse ritual. Isso me deixava curioso. E eu me lembro quando me questionava sempre me deparava com o estranho vazio de saber que todos faziam assim e não fazíamos ideia do por que. O processo era o mesmo em qualquer casa, em qualquer mesa servida, mas sem ninguém falar sobre, sem que fosse necessário falar.
A primeira vez que eu comi a sobremesa antes do prato principal foi há pouquíssimo tempo. Meu estômago até achou um pouco audacioso demais, mas dentro de mim o Vitor criança queria muito encarar esse desafio e eu fiz mesmo por ele. Não que tenha sido difícil, mas é como escrever com a mão esquerda para quem é dentro como eu: é uma sensação estranha, algo não parece normal, uma intuição ativa o instinto de parar o que estamos fazendo quando na verdade estamos apenas comendo um doce antes de um salgado. Fica na sua, estômago!
Fora isso, a sensação foi libertadora de alguma forma. Eu me sentia vingado, a colher de sobremesa era minha espada contra os padrões ritualísticos da cultura gastronômica, algo que não fazia sentido nenhum de ser tão naturalizado como regra absoluta. Um estatuto sacramentado sem um motivo claro. Eu percebi que da mesma forma que não fazia sentido comer o prato principal e depois o doce, não fazia sentido nenhum inverter também. Não havia necessidade nem de um, nem de outro. Isso foi um choque de realidade: a ordem não existe, nem aqui, nem lá.
Não existe o que deve ser feito. Existe o que se faz. E a grande maioria das coisas que somente são feitas porque simplesmente assim o são, a gente faz parecer que é assim que deve ser. Não é bem por aí. Pode ser que exista alguém que não goste de dormir em camas e prefira dormir em pé que se questione sobre a origem dessa história de dormir deitado. Pode ser que haja quem não conte o horário em horas e minutos e ache um absurdo que os minutos durem 60 unidades de frações minúsculas de tempo. Pode ser que haja quem sempre come a sobremesa antes do prato principal, café da manhã as 12h e almoço as 08h.
No final da contas, não faz diferença. A gente se acostuma com o jeito que todo mundo faz e acha que é o jeito certo de fazer. Nada disso. É como já diriam as sábias palavras de mãe: “se Fulano pular da ponte, você vai pular também?”. E se comer sobremesa no fim da refeição for como pular da ponte? Ninguém sabe. E ninguém liga. A única coisa que é tua é tua vida, então faça o que você quiser. Mesmo. Só não fique achando respostas vazias para justificar o pudim depois da lasanha ou qualquer outra coisa que te disseram que era assim que era pra ser feito e você simplesmente acreditou. Não use tua fé cega sobre como deve-se comer querer criar uma dieta padrão para todo mundo.
