Esse cafona patriotismo…

A viagem a Brasília, em abril deste ano, foi a que mais amei fazer até hoje. Saímos na sexta de manhã e voltamos na tarde do domingo de Páscoa, deixando nosso coração na abrasiva Praça dos Três Poderes. Deliciosamente planejado, este pulo na capital federal foi um turismo cívico por excelência, a começar pelo hotel: o primeiro da capital, projetado por ninguém menos que o mestre Oscar Niemeyer.

Com a cidade apenas para nós mesmos naquele feriado prolongado, nos deslumbramos com as pinturas do Itamaraty, a corte do STF e as colunas do Palácio do Planalto. Nos surpreendemos com a Câmara dos Deputados, com o obelisco do QGEx e com a tradicional feirinha da Torre de TV; isso sem mencionar presenciar os restos mortais de Juscelino Kubitschek.

Não falo pelos meus ilustres acompanhantes, mas esta viagem me marcou por ser a que mais traduziu meu íntimo (mas nada secreto) sentimento de patriotismo. Andar em Brasília, planejada desde o início pela história e para fazer história, é uma experiência inesquecível para qualquer brasileiro livre daquele cafona complexo de vira-lata.

Mas o que parece ainda mais cafona é o (autêntico) patriotismo. O orgulho de ser cidadão brasileiro, de nossa história, parece sempre vir acompanhado de asteriscos, ressalvas e letras miúdas. “Mas” e “se não fosse” são frequentes, como se a cumplicidade total com os problemas do país fosse compulsória para quem demonstra apreço pelos símbolos nacionais.

Outra ligação, tristemente embasada, é a ligação do patriotismo com movimentos de extrema direita (anauê?) e, mais recentemente, com a direita burra. Os militares desempenham função essencial e irrevogável à pátria, mas passeatas pedindo a volta dos anos de chumbo só podem ser levadas como flash mobs de muito mau gosto.

Neste ano de Copa do Mundo observamos a bandeira nacional se tornar onipresente, junto das camisas oficiais da seleção e outros adereços ditos “patrióticos”. Bastou a derrota humilhante na semi-final para dissipar qualquer ilusão de suposto nacionalismo, colocando até o esportivo em dúvida.

E a abolição de uma identificação com o país natal em prol de formar “cidadãos do mundo”? Esta pode ser a realidade para alguns, mas na prática nem sempre funciona assim — às vezes ocorre o contrário. É no convívio com pessoas de outros países e outras culturas onde fica evidente qual é o nosso país e qual é a nossa cultura.

Descobri que, particularidades regionais e pessoais de lado, somos sim representados por uma bandeira e pertencemos sim a um povo, seja pela aparência, pela cultura ou ambos. O modo de pensar, o modo de falar, o modo como manejamos nossos relacionamentos — tudo isso se faz evidente como nunca quando somos colocados em um ambiente multicultural.

O intercâmbio cultural traz consigo um entusiasmo natural por “vender seu peixe”. Aspectos positivos e negativos são compartilhados frequentemente em diversas oportunidades. Os vira-latas podem ganir sobre como o brasileiro fala alto, é mal-educado e não respeita as leis; enquanto vê como legítimo o fedor dos franceses, a frieza dos suecos e a preguiça dos italianos.

Determinam como causa de desvios éticos e morais, no governo e fora dele, uma “cultura maldita” e irreparável, legitimada e incentivada pelo patriotismo. Mas não sabem eles que o patriotismo, o orgulho de ser brasileiro, não consiste em fechar os olhos para os inúmeros problemas que temos em nosso país— mas sim numa preciosa motivação para superá-los.

“Creio no triunfo do espírito que afirma e deseja a grandeza nacional, no espírito que se opõe à negação, a descrença, ao ressentimento estéril” — JK