Aceita que dói menos

Vejo alguns amigos reclamarem frequentemente de como as decisões são tomadas em suas empresas, de como as ações são priorizadas de forma incoerente para eles. Percebo como isso afeta a motivação dessas pessoas e depois de certo tempo todos convergem para um determinado tipo de posicionamento resignado em relação a isso. O famoso clichê “aceita que dói menos” é quase sempre o estágio final desse processo. Mas será verdade?

Acredito que é possível dividir os profissionais em dois tipos: aqueles que se restringem em executar as tarefas e aqueles que precisam que seu trabalho tenha um propósito. Antes que você se apresse em julgar esses grupos é importante tirar o maniqueísmo da história. Não se trata do grupo do “mal” de um lado e do grupo do “bem” do outro, é mais complexo que isso e passa por entender quais são as expectativas, sonhos e motivações que cada pessoa define em sua vida. Entretanto a cada geração vemos mais profissionais como os meus amigos, que querem que seu trabalho tenha um propósito.

Historicamente as empresas determinaram uma cultura onde a hierarquia é muito forte e papéis são bem definidos, é simples entender o seu escopo de atuação e a quem obedecer. Obedecer, isso mesmo. Por mais que digam que há espaço para discussão isso é apenas um verniz moderninho porque na prática a decisão está tomada e a discussão é só uma tentativa de convencer o funcionário. Em uma estrutura como essa o grupo dos “executores” é perfeito ao passo que o outro grupo vai sofrer. Depois de algum tempo essas pessoas vão se resignar para conseguir se encaixar nesse modelo. Na prática elas terão de executar algo em que não acreditam e lá se foi a motivação. A loucura dessa história é que essas mesmas empresas se esforçam com mil artimanhas para deixar os funcionários motivados que vão desde festas, cerveja, videogame até bônus polpudos.

Empresas vão tomar decisões corretas e equivocadas mas não é esse o ponto. Certa ou errada essa decisão precisa estar alinhada com a estratégia (considerando que a empresa tem uma e está clara para todos), ter propósito para que as ações decorrentes dela façam sentido para quem for executar. Além disso é preciso gastar tempo em comunicar de forma clara o que motivou a tal decisão. Talvez a gente precise de líderes com menos vaidade, que não se sintam menos poderosos por exporem que nem sempre têm a resposta pronta para os problemas, que sejam capazes de ouvir seus funcionários. Não se trata de se omitir da responsabilidade de tomar as decisões. No entanto elas podem ser tomadas com a colaboração de funcionários motivados e especialistas naquilo que fazem.

A motivação verdadeira nasce quando você sabe que aquilo que você faz tem um propósito e é a tentativa mais coerente para alcançar o objetivo, quando você acredita que aquilo que você executa faz a diferença no resultado da empresa.

Mas o que isso tem a ver com produto, Vitor?

Tudo. É impossível fazer um bom produto com uma estrutura de empresa tradicional, onde o conhecimento e decisões emanam do CEO e com funcionários desmotivados. Produto bom nasce de um ambiente criativo, colaborativo, com gente que quer fazer a diferença no resultado, que quer deixar sua marca, enfim, gente que não quer aceitar simplesmente porque não tem que doer.