A culpa é de Tobias
Tobias estava indignado. Era muita roubalheira. Governistas roubavam. Oposicionistas roubavam. Os juízes roubavam. Até sua avó Carmem roubava.
Resolveu que mudaria o país. Não seria com panela, nem com protesto, nem com revolução e nem “textão” no Facebook.
Ele desenvolveria uma máquina do tempo e diria aos índios para matar qualquer homem branco que desembarcassem no litoral brasileiro.
Estudou. Passou no vestibular. Estudou línguas indígenas. Fez curso de sobrevivência na selva. Se formou em astrofísica. Conseguiu uma bolsa de pesquisa nos Estados Unidos. Foi para Rússia. Depois para o Japão. Voltou para o Brasil e construiu uma máquina do tempo com recursos do CNPq.
Fez uma grande festa. Se despediu de todo mundo e entrou na máquina. Era o dia mais importante da nação. Ligou. Um clarão tomou conta do lugar.
Num piscar de olhos, Tobias estava em algum ponto do Rio São Francisco. Verificou seu equipamento. Livro com expressões indígenas, bússola, faca, pederneira, dois pacotes de club social, corda e protetor solar.
Mal começou a andança, viu um grupo de índios nadando e pescando. A curiosidade foi instantânea. Eles se aproximaram de Tobias. Examinaram sua roupa. Riram. E disseram algo que ele traduziu como um convite até a aldeia. Ele os seguiu.
Foi recebido com festa. As mulheres comentavam e apontavam. As crianças seguiam e mexiam em sua coisas.
Foi chamado para se sentar junto aos anciãos. Foi servido e bebeu algo que não soube identificar.
Já estava se sentindo em casa. Lá pelas tantas se lembrou de sua missão e perguntou em tupi que tribo era aquela
- Tubüb-abá!
Não conseguia lembrar a tradução. Nessa hora entrou uma série de índias e o despiram em clima de festa. Tobias bebia e dançava.
Quando não se aguentava mais sentou em um tronco para descansar. Não imagina que sua missão traria tanta alegria. Com o pensamento leve, viu que alguns homens acendiam uma fogueira.
- Tubüb-abá.
- Tupinambá!
Lembrou. Se levantou para correr. Era tarde, mal ficou de pé foi vítima de um golpe de borduna na cabeça.
Quando acordou estava amarrado e escutou os tupinambás conversando:
- … então cheguei na Potira e disse que um amigo meu estava querendo nadar com ela na cachoeira…
- … Na hora que começou tocar Vai Pererê, o Vento Selvagem arrumou uma briga no “CamarOca”…
- … a festa que a gente fez para esse homem branco foi cabulosa… O Papa-capim detonou no tambor…
Tobias foi comido. Depois do seu fracasso foi acusado de muitas coisas nas redes sociais. A Veja fez uma matéria ligando seu nome a favorecimento de uma empreiteira na construção da máquina do tempo. A Carta Capital dizia que ele estava num avião com uma carga suspeita, quando foi aos Estados Unidos. O PT dizia que ele era um neoliberal. O PSDB o chamava de bolivariano. O PSOL falava que ele era agente da CIA. O PMDB dizia que não sabia se Tobias tinha contas na Suíça. A ex-chamava ele de brocha.
E no final a culpa foi do Tobias