Dona Eloísa Sincera
Espontaneidade e sinceridade são habilidades que invejo. Poucas pessoas conseguem o manejo das duas em completa harmonia. Dona Eloísa é um desses seres. A conheci numa visita à Casa do Ceará. Como o nome sugere, trata-se de um ponto de encontro da cultura nordestina na Asa Norte. A Casa do Ceará é um desses lugares que passam desapercebidos numa cidade monumento como Brasília. Espaço interessantíssimo. Tem uma biblioteca e uma coleção de discos preciosos, além de uma galeria de arte muito bela. Agora, bacana mesmo é o Museu de Artes e Tradição. O acervo é rico, tem fóssil, lamparina, imagens do Padre Cícero, bonecas de pano, artesanato variado, armas, indumentárias do bumba, objetos do cangaço e outra infinidade de coisas. Dona Eloísa, que é portuguesa, é a responsável daquele ambiente. Numa dessas visitas, a guardiã daquele tesouro apontava para um objeto, uma prensa de fazer queijos. O grupo que estava ali prestava atenção. Era uma turma da Universidade de Brasília. O professor, que guiava aquela turma, decide fazer uma pergunta:
- Dona Eloísa, e o processo do queijo? Como era a retirada?
Como a tradição nordestina via este ato? Ela reconhece este trabalho na riqueza social e na cultura imaterial? Quantos dias levava esse processo até a chegada para o consumo? Que espécie de gado ocupava os pastos do Nordeste?
Dona Eloísa olha para o professor e responde na lata:
-Não sei, sou de Lisboa! Deste lado estão os objetos de defesa…
E saiu andando e apontando outros objetos. Esbocei um sorriso, mas o professor olhou para mim na hora. Por dentro eu ri muito. Salve, Dona Eloísa! Quem sabe um dia consiga ser como você.