O Amanhecer de Dona Madá

Não havia dia que Dona Madá não rezasse. Católica fervorosa, herdou a religião dos pais. A família chegou no Distrito Federal em meados dos anos 60. Vieram do interior do Estado de Goiás, de uma cidadezinha chamada Bananeiras. Numa época em que Brasília parecia ser um eldorado.

O pai de Dona Madá, Seu Juarez, era contínuo da Novacap, a empresa que girava a engrenagem da cidade, que se enguia bem no meio do Planalto Central. Sua mãe, Dona Domingas, cuidava da casa e do restante da família. Moravam numa casa no Guará. A cidade-satélite foi erguida num esquema de mutirão para os funcionários da Novacap.

Eram seis irmãos. Madalena era a quarta. Quatro eram homens. Antônio, Carlos, Zé Duda e Batista tentaram seguir o caminho do pai. Apenas Carlos conseguiu. Com a ajuda de um “padrinho”, foi indicado para ocupar uma das vagas de contínuo também na empresa do pai.

Antônio e Zé Duda se arriscaram na construção civil, numa época onde não faltavam vagas. Num descuido, Zé Duda acabou caindo de um andaime. Virou estatística. Mais tarde, Antônio foi tentar a vida em Serra Pelada, nunca mais tiveram notícias dele. Zelinha, a irmã caçula, acabou tirando a sorte grande. Com apenas dezesseis anos, despertou o interesse de um sargento do Exército. Casou-se e foi morar com o militar em um apartamento funcional na Asa Norte.

O mais velho, Batista, via tanta gente enriquecendo, que quis aproveitar as oportunidades rápidas de ascensão. Morreu numa briga de bar. Uma facada na lateral da barriga. Dizem que foi por conta de um esbarrão, outros por conta de um lote, há também quem afirme que foi dívida de jogo.

Madá acabou “guardando-se”. Quis ser freira. Depois desistiu. Fez Escola Normal. Frequentava a igreja pelo menos três vezes por semana. Seu Juarez se dizia católico, mas ficava meio preocupado com a filha. Até queria ver a filha casada como a mais nova, porém andava mais preocupado com o dominó na praça. Dona Domingas era a maior incentivadora. Cada etapa religiosa da filha era uma alegria. Batismo, Primeira Comunhão, Crisma…

E Madalena gostava mesmo da rotina religiosa. Acordar cedo, meditação, disciplina e devoção. Entrou para a antiga Fundação Educacional. “Casou-se” com a Igreja e o Magistério. Enquanto na paróquia era Dona Madá, na escola era a Tia Madá.

Numa tarde seca de agosto, Madá escutou uma conversa estranha na sala dos professores. Durante o intervalo da escola, entra suas leituras bíblicas e o café, o Professor de Educação Física, o Caldeira, conversava baixinho com a Tia Bena. Caldeira era um conquistador, na certa estava arrastando seu charme para a inocente professora. Embora concentrada no livro sagrado, pescava alguns pedaços da conversa. Não conseguia acompanhar de maneira lógica, apenas palavras soltas. Relaxamento, trabalho, espírito, médiuns, incenso, elementos, natureza, água, estrela, princesa, lago, leveza e Vale do Amanhecer. Vale do Amanhecer? Madalena nunca ouvira falar sobre. Uma curiosidade quase pecaminosa despertou nela.

Após o terço junto com as amigas da Legião de Maria, comentou com sua amiga Carlota sobre o que escutara naquela tarde. Carlota deixou cair o biscoito de queijo. Benzeu-se. Bateu na madeira e avisou a amiga:

- Madá, é um lugar perigoso! As pessoas lá mexem com todo tipo de espírito. Eu disse TODO o tipo de espírito.

O aviso inquietou o coração de Madalena. Como um alarme que disparasse um senso de dever. Ela faria uma missão evangelizadora.

Reuniu as companheiras de rosário, colocou avisos no mural da paróquia. Entretanto ninguém se empolgou muito. Nem mesmo o padre Fagundes.

Inconformada, sua fé não se abalara. Numa terça-feira qualquer, sem falar com ninguém, arrumou suas armas. Terço, bíblia, escapulário e crucifixo. A oração da manhã foi maior que a de costume. Suas mãos suavam. Preparava-se para combater o bom combate. Seria a responsável para levar a palavra de paz até aquela gente.

Tomou um ônibus em direção a Rodoviária do Plano Piloto. Da Rodoviária tomou mais uma condução até o Vale do Amanhecer. Durante o trajeto não dormiu, nem se distraiu. Pelo tempo que levou até o seu destino, foi possível fazer a meditação do Rosário.

Desceu na DF-130, bem na entrada daquele lugar considerado profano. Ajeitou a roupa amassada. Olhou em volta. Aparentemente como qualquer cidade. Começou sua peregrinação.

Ruas asfaltadas em linha retas, casas e sobrados com portões variados. Comércio. Um vendedor de picolé. Alguns carros. Gente andando pelas calçadas. Crianças em uniforme escolar. Um cachorro dormindo sob a sombra de uma árvore.

Um disfarce perfeito. Uma cidade simples jamais levantaria suspeita. Ela não deixaria se enganar por isso. Uma placa suspeita: SILÊNCIO. ÁREA DE CULTO. Era um sinal de que estava perto de algo.

Outra placa com uma seta: LAGO DA ESTRELA.

Foi quando os olhos de Dona Madá testemunharam os sinais de algo estranho. Uma espécie de pirâmide e um lago com grandes imagens. Apertou o terço entre as mãos. Havia chegado no seu destino. Ali começaria seu trabalho evangelizador. Respirou fundo e começou a procurar as ovelhas perdidas.

Mas para sua decepção, não havia ninguém naquele horário. Foi quando pela primeira vez desanimou. Começou a imaginar que aquela empreita era uma perda de tempo.

Ficou olhando para aquele lago em forma de estrela. O vento deu um certo frescor em Madalena. Já que estava ali, decidiu se aproximar da entrada. Num sentimento misto de decepção e conformismo.

Um pequeno caminho de água acompanhava os passos de Dona Madá. O lugar era extremamente colorido, embora as tonalidades azuis e amarelas se destacassem mais. Margeou um portão com uma lua e uma cruz.

Observou que no morro atrás daquela arquitetura estranha havia uma inscrição: SALVE DEUS!

Blocos quadrados de concreto e coloridos pelo chão. Altares. Imagens. Estrelas. Cruzes. Uma cascata. Um homem varria do outro lado do lago. Enquanto processava aquele cenário em sua cabeça, Madalena observou vários blocos retangulares, divididos por cores. Do tamanho de uma pessoa.

Não se sabe se foi o cansaço, mas como o tamanho parecia convidativo, ela deitou. Fechou os olhos. Escutou o barulho da água. Deixou o vento tocar sua pele. O peso do corpo desapareceu. Dormiu.

Acordou com um som de um latido ao longe. O homem, que varria do outro lado do lago, deixou a vassoura de lado e falava ao celular. Será que dormira uma hora ou duas? Acordara como quem havia dormido uma noite tranquila. Um descanso que experimentara poucas vezes. Foi então que se deu conta, esquecera o combate. Mas ela não se importou. Madalena amanheceu.

EPÍLOGO: Madá nunca contou para suas amigas paroquianas sobre aquela terça-feira. Também não deixou de frequentar a Igreja. Não tocou mais no assunto. As crianças do Jardim II, turma da Professora Madalena, andam dizendo que a “tia” tem estado mais legal que o de costume.