Tempo de crise
Em tempos de crise reclamar virou esporte. Para quem não tem muito assunto é uma ótima muleta. Na escala de reclamações, governo e a economia seguem disputando a ponta, muitas vezes confundindo o reclamador. Em terceiro segue o calor. Também pudera, essa época do ano a baixa umidade castiga os cidadãos do Planalto Central.
Estava na fila do caixa de um supermercado. Aquelas filas para dez produtos, que muita gente passa doze, treze, quinze, dezessete produtos, porque não tem problema, só um a mais não faz diferença… Mas esqueçamos este detalhe.
Enquanto observava as revistas e os produtos que ficam por ali nas prateleiras, naquela tentativa última de serem levados, percebi a conversa de dois homens um pouco atrás.
Aparentemente se conheceram ali, conversa despretensiosa:
- Rapaz, Brasília está demais com esse calor.
- Nem me fale… Com esse tempo não tenho nem conseguido dormir direito…
- E deixar a janela aberta é pior… Fica tudo cheio de poeira…
- E se colocar o ventilador fica aquele bafo… Se for ar-condicionado ataca a alergia…
E eu folheando uma Superinteressante.
- Calor pior que esse só vi no Piauí!
- Rapaz, isso é porque nunca foi no Ceará!
- Você já foi em Rajada?
- Não. Você tá falando porque não conhece Parambu!
- Macho, tô te falando, quente é em Jaicós…!
- Você não sabe de nada! Tauá… Tauá é quente…!
- Que o quê, o quê…!
A discussão estava pegando fogo. Pensei em deixar quem estava atrás mim passar e colocar lenha na fogueira. Ia falar de Mutunópolis, uma cidade ao norte de Goiás. O clima da cidade é tão quente, que é parecido com a sensação de ser cremado.
Os ânimos continuavam esquentando , mas acabei ficando sem saber o desfecho. Minha vez no caixa havia chegado. Era melhor assim. Não ia esquentar minha cabeça com aquilo. No calor da discussão, às vezes alguém se altera e parte para a ignorância. Já basta meu nariz sangrando por conta do clima de Brasília.