A República Perfeita

Acordei hoje em um novo mundo. Até estranhei quando olhei pela janela.

Lá fora, não havia mais corrupção, afinal não há mais Dilma na presidência. Lá fora, tudo funcionava melhor, afinal o PT estava fora da presidência. Na UBS da rua de casa, não há mais fila para atendimento que demoram 3 meses. Não há mais necessidade do Bolsa Família, porque estamos todos agora vivendo bem financeiramente. O ônibus passou tão vazio que me sentei e ainda deu pra colocar a mochila na cadeira ao lado, afinal agora tem ônibus de sobra.

No metrô, me deparei com centenas de jovens com moletons de faculdades públicas, afinal agora há vaga para todos o que querem estudar nessas universidades. Ah, esqueci de comentar que passei pela catraca livremente, afinal agora temos passe livre para todos.

E tudo isso porque a corrupção acabou junto com o mandato de Dilma e todo o legado do PT que aparelhou esse país.

A grande merda é que é tudo uma grande mentira! Desde que as panelas pararam de fazer barulhos estridentes, as migalhas que temos de direitos estão se esmigalhando cada vez mais. A cada dia perdemos mais e mais do pouco que temos. Nós, minorias. Nós, trabalhadores que tentamos sobreviver todos os meses usando muito mais do que a metade de nosso salário só pra aluguel, alimentando os mais ricos e sendo alvos da especulação imobiliária. Nós, que não conseguimos pagar faculdades de milhares e milhares de reais.

“A gente tira os outros depois que a Dilma sair”, eles disseram. Desde o afastamento dela, Cunha ainda não foi cassado. Todos os citados na Lava-Jato continuam em suas mesmas posições. Ninguém vai cair, paneleiros. Só ela. Unicamente ela.

Ela vai cair, por ser ela. Não defendo muitas políticas adotadas nos últimos tempos, mas o mandato é dela por direito. Não votei nela, mas o mandato é dela. A maioria escolheu que ela estivesse lá, é muito difícil de entender isso?

Sem contar que ela é mulher. E vimos em todos esses pronunciamentos arcaicos o quanto a misoginia está intrincada em todas as estruturas dessa política podre e da nossa sociedade retrógrada. Derrubaram a primeira mulher presidenta da nossa história, apenas por ela ser ela. E apenas, porque, muito devido a ela, muitos dos grandes estavam caindo.

Todos. Os. Dias. Temos. Direitos. A. Menos.

E olha que mal temos direitos.

A religião tá no meio da política. O usurpador vai ser guiado feito um fantoche pelo Congresso mais conservador desde a ditadura militar. Grande parte dos congressistas é da bancada evangélica. Nós, LGBTs, estamos na mira de todos esses. Porque afinal, segundo esses falsos republicanos e democratas, queremos privilégios. Queremos ser os diferentões. Como se ter o simples direito de me casar, constituir família, adotar, fosse um privilégio.

Privilégio é você ai, que bate panela mas não vê os direitos que serão cortados. O retrocesso que tomará conta de tudo. Na hora de bater a panela e vestir a blusa da seleção, que não era usada desde a última Copa, foi gostoso. Quero ver quando a água começar a bater na sua bunda também. Porque a água tá batendo na minha bunda desde que o golpista assumiu interinamente a República fantoche. Sem que a grande mídia mostre tudo isso. Porque pra elas nunca existimos mesmo.

Você, classe média das panelas, terá seus toscos direitos trabalhistas minguados. Sabe-se lá quando vai se aposentar. Quero ver pagar a faculdade de medicina do filhote sem o FIES. Quero ver ir no mercado e quebrar a cara com os preços. Quero ver pagando coisas cada vez mais caras e de pior qualidade, se tudo for privatizado ensandecidamente.

Ai você vai reclamar. Mas cara, essa sua dorzinha não é nada. Se isso vai mexer com seu bolso, imagina para aqueles que são pobres mesmo. Se vai mexer com seus direitos, imagina para aqueles que nunca tiveram nada de nada. E o pouco que conseguia se avançar, vai virar pó aos poucos.

Bem-vindo a República do Fantoche. Bem-vindo a República da Mentira. Bem-vindo a República do Retrocesso.

Para mim, a presidência está vaga. E enquanto olho meus direitos minguados minguando mais (e olha que ainda sou privilegiado, gay, mas branco, classe média, empregado), vou tentar estar nas ruas sempre. Porque é ali que o Brasil acontece. Enquanto, os homens-brancos-ricos-cis destroem nossa vida. Nosso país. Nossos direitos.