Lancei um desafio para o meu namorado e recebi reflexões de presente

Museu da Diversidade de São Paulo (Arquivo pessoal)
“Lá fora, com os sozinhos existem os homens. Apesar de parecidos, nem todos os homens são iguais. Para alguns faltam membros, para outros helicópteros. Estão inclusos na categoria homem o cachorro, o dinheiro, e as mulheres de todas as cores e tamanhos, sendo que algumas cores têm mais privilégios do que outras.”
“Como é possível que o sofrimento que nem é meu e nem me interessa me afete de imediato como se fosse meu e com força tal a ponto de impelir-me a ação?”

Fui brindado com essas duas frases depois de lançar um desafio para o meu namorado: a cada final de semana, um de nós levará o outro para algum lugar às escuras. Isso mesmo. Ele pode me levar para qualquer lugar, sendo que eu só poderei saber quando chegar no local. E o mesmo eu posso fazer. O objetivo: sair da zona de conforto, se aventurar em locais e novas atividades que muitas vezes iam ser deixados de lado pelos mesmos lugares de sempre, decididos de última hora só para não ficar em casa. Sem contar que na hora de decidir, você tem que pensar por você e pelo outro e, para isso, se aprofundar ainda mais nos interesses do parceiro que você escolheu para estar ao seu lado. Mesclar os gostos para criar uma programação que busca ser prazeroso para os dois (ou que você quer fazer e o outro nunca faria por algum preconceitinho ou medo, por que não?).

Nesse final de semana então, o “destino” me colocou defronte dessas duas frases (fantásticas) que, para mim, foram daquelas que deixam sua marquinha para sempre. Frutos dessa brincadeira que já quero levar para a vida toda. Sei que essas coisas, tanto as frases quanto a brincadeira, não foram fruto do acaso (coisa que não acredito), mas sim de algo que devia acontecer. Sabe-se lá porquê. Sabe-se lá como. Mas no acaso, eu não acredito. E se for destino mesmo: valeu destino!

No sábado, levei o boy para uma peça que nunca havia ouvido falar antes da minha caçada louca por uma lugar para levá-lo, já que fui eu o escolhido para começar o desafio (nada mais justo, já que eu que dei a ideia). Mas achei que era nossa cara, então rumamos para a Lapa (um bairro que nunca iria de última hora porque demora cerca de uma horinha de casa). E foi lá que me deparei com a primeira das frases:

“Lá fora, com os sozinhos existem os homens. Apesar de parecidos, nem todos os homens são iguais. Para alguns faltam membros, para outros helicópteros. Estão inclusos na categoria homem o cachorro, o dinheiro, e as mulheres de todas as cores e tamanhos, sendo que algumas cores têm mais privilégios do que outras.”
Elenco da peça “Os médios: um relato de seres terrestres que pilotaram a nave”

Primeiro pontinho para o desafio. Me fez feliz, me fez pensar. Gosto disso. Sem contar à peça fantástica que é “Os médios: um relato de seres terrestres que pilotaram a nave” (em cartaz no teatro Cacilda Becker até o fim do mês. O melhor: gratuito!), permeada de críticas e sarcasmo aos ditos “cidadãos de bem” e a nossa queridíssima mentalidade de classe média.

Mas voltando à frase. Acho que nem preciso tecer mais nenhum comentário, ela já é ótima por natureza. Afinal, enquanto eu estou aqui, montado em todos os meus privilégios (menino branco, de classe média, com ensino superior) e mesmo assim reclamando por não ter meu “helicóptero”, tem gente por ai nesse mundão com preocupação que para mim nunca deixaram de ser certeza cotidianas.

No domingo, o Lu, meu namorado, me levou para o Museu da Diversidade, que fica na estação de metrô República de São Paulo. E foi fantástico já pelo simples motivo de: passo por lá todos os dias, mas nunca fui no museu embora tivesse muita vontade. Por quê? Correria da rotina. “Amanhã eu vejo”. “Um dia eu vejo”. “Um ano eu vejo”. Hoje, graças a ele, eu vi. Me identifiquei, me maravilhei, me vi representado. Segundo ponto para o desafio.

Foi lá também que me deparei com a segunda frase:

Museu da Diversidade de São Paulo (Arquivo pessoal).

Essa também dispensa comentários, não é? Além de servir para uma infinidade de situações. A única coisa que retiraria seria aquele “nem me interessa”, afinal penso que muitos não conseguem se sentir indiferentes ao sofrimento, mesmo que não “te afete de imediato”. Me refiro à luta das mulheres contra a cultura do estupro, a luta dos secundaristas que ocupam as escolas, da população da periferia, dos trabalhadores que enfrentam horas e horas de serviços público lotado e de má qualidade na grandiosa metrópole paulistana. E a luta da qual o sofrimento é meu. A luta pela visibilidade e o respeito aos LGBTs. Da qual, sei que muitos, apesar de não serem os atingidos por tal sofrimento, o sentem e agem. Nos apoiam e nos fortalecem na nossa luta, que é, contudo, puramente nossa.

Não sei onde esse desafio vai nos levar. Mas, olha, se fosse só essa primeira semana já poderia dizer que valeu muito a pena. Por que não pensei nisso antes? E pensar que a ideia surgiu do nada, fruto do “acaso” que na verdade é “destino”. Muito provavelmente essa ideia já rola entre vários casais por ai. Tão simples, tão fácil. Mas mesmo assim, nunca havia pensando nela.

Os caminhos que o desafio é capaz de nos levar podem ser múltiplos. Estamos prontos para experiências boas, mas preparados para as ruins ou não tão boas. Mas o mais importante: na vida, não importa tanto o destino final — que é inevitável — mas aquilo que você fez, durante o percurso, com as pessoas que você gosta, fora da sua zoninha de conforto que, muitas vezes, te tira tantos prazeres cotidianos. Nossa caminhada começou agora, mas e a sua? Vamos embarcar também e aproveitar o percurso da vida?