O relógio tá pifando

Minha vida tá feito um relógio. Anda, anda e não sai do mesmo lugar. Hoje amanheceu chovendo, ontem tava sol e frio. Corri o dia inteiro. Hoje corro também, com a única diferença que o chão estará molhado. Ônibus. Ônibus. Caminho. Trabalho. Almoço. Ônibus. Metro. Ônibus. Fila. Como. Aula. Ônibus. Metro. Ônibus. Deito. Durmo. Ônibus…

Nesse sacolejar da vida, ainda procuro as pequenezas que deixam belas as rotinas. Mas como fazer as coisas que quero se não tenho tempo direito nem pra fazer as que não quero e sou obrigado a fazer? Começo o dia na luta entre querer ler o livro de ficção, mas precisar ler os intermináveis xeroxs da faculdade. Mas, na verdade, na maioria das vezes, acabo mesmo é cochilando. “Ninguém mandou fazer outra faculdade”, dizem por ai. Se eu não realizar minhas vontades, quem realizará? Quero aprender mais francês, mas nem as regras do português aprendi ainda.

Conversar só pelo digital. Na fila. No ônibus. Sentar pra papear? Não. Afinal, o tempo que antes tinha pra isso agora se concentra nos fins de semana e olhe lá.

Meu relógio tá rodando ainda, mas um dia ele pifa. Pifa e se liberta. Será que pifa logo, em vida, ou só daqui 60 anos? Que ele pife todos os dias. Pra que eu não pife completamente.