As listas de Alice

Alice é uma jovem adulta que odeia essa expressão. Tem 20 anos, faz a faculdade que gosta, é louca por praia, tem muitos amigos, e mora com os pais. Apesar de muito responsável e “madura demais pra sua idade”, como seus próprios pais dizem, Alice sempre teve problemas pra aceitar essa coisa de crescer. É muita preocupação com o futuro, são muitos receios sobre esse passar pela vida ser tão rápido. Ela sempre foi de fazer muitos planos. Se tem uma coisa que a deixa feliz (fora ir para a praia, fazer a sobrancelha e comer Big Mac), essa coisa é fazer listas e poder marcar um “check”, item por item. 
Desde os dez anos, Alice já imaginava como seria quando tivesse quinze (na cabeça dela, idades muito distantes). Ela teria um namorado maravilhoso, com quem ficaria por vários anos. Ele seria seu melhor amigo, juntos seriam o casal que todos diriam ser O casal perfeito, e dividiríam todas as conquistas um com o outro. Ela faria uma faculdade divertida, e seria a melhor aluna da turma. Noivaria no jantar da sua formatura (com um anel de pedra), viajaria o mundo, teria uma beagle, compraria um apartamento (que seria decorado igual aos das fotos do Tumblr). Depois, faria um casamento diferentão na praia, viajaria mais um pouco quando acabasse sua lua de mel nas Ilhas Maldivas, teria duas filhas (antes dos trinta, para não ser uma mãe velha). Tudo planejado. 
2012, Alice tinha quinze anos. Arrumou um namorado maravilhoso. Eles eram melhores amigos, e todos que os conheciam diziam que eram o melhor casal da vida. 
2016, Alice fazia uma faculdade que amava e conseguiu ser uma das melhores alunas da turma. Seu curso estava na reta final, ela ainda achava estranha a ideia de estar crescendo e de a data do possível “noivado” estar se aproximando. Mas até que era um estranhamento bom… ela realmente gostava de imaginar uma vida ao lado do namorado. Na verdade já estavam revendo a história de noivar, mas os planos de morarem juntos estavam de pé. Eles conversavam empolgados sobre isso e inclusive, ela já salvava fotos de referência de decoração de apartamento no Pinterest e imaginava nomes para a beagle. Estava tudo conforme seus planos. Na sua cabeça, seu namoro só melhorava, os dois estavam cada vez mais bem resolvidos e maduros. 
Infelizmente, era só na sua cabeça mesmo. No meio do ano, depois de umas brigas relativamente simples, seu namorado resolveu terminar, assim sem mais nem menos. Ele dizia que não sabia explicar, que a situação só tinha esfriado e já fazia tempo. Como assim, já fazia tempo? Duas semanas antes, estavam na praia como um casal feliz e postando fotos na beira mar juntos. Foram duas horas de conversa (na verdade, mais pra monólogo) para simplesmente acabar. O pior… foi ela quem teve que colocar o ponto final, porque ele estava apático. O ex futuro marido não admitiu, mas no fundo Alice sabia… ele também estranhava a aproximação do possível noivado, do “ou vai, ou racha”, mas não era um estranhamento bom. Alice, que sempre foi uma admiradora do mar e das ondas, nunca percebeu que ele também era. Ele ia na onda de todo mundo, e ela só se deu conta disso quando ele parou de ir na dela. Para ele, isso significaria o fim da faculdade sem ter aproveitado o suficiente, os mil amigos estarem para sempre em segundo plano. Estava ficando sério demais para o moleque que, com um simples “tchau”, deixou Alice sem chão e com olhos inchados, aos prantos em seu carro enquanto no fundo tocava som de um popzinho do momento. Naquela hora, Alice percebeu até que seu inglês estava ótimo. A letra daquele popzinho nunca tinha feito tanto sentido, assim como as letras de todas as outras músicas mais tocadas no Spotify que ela ouviu naquele dia. Isso, sem contar os sertanejos que tocavam em todos os lugares falando de amores não correspondidos, os reggaes que com toda a sua positividade narravam um amor que deu certo. Será que todo mundo que compõe música só pensa em amor? Será que nessa vida é só o amor que inspira? Esses pensamentos não saíam da cabeça de Alice, e ela só concluiu que talvez realmente seja impossível ser feliz sozinho. Foram dias sem entrar no seu quarto, pra evitar as fotos do casal que decoravam todo o seu cantinho. Semanas evitando o Facebook, pra não correr o risco de ver a felicidade de ninguém estampada enquanto ela vivia seu caos. Rolos e rolos de papel higiênico gastos para secar as lágrimas que nunca paravam. Ela ia para uma festa ou outra nesse meio tempo para esquecer do que acontecia, todas vinham acompanhadas de um sentimento de vazio profundo. Ela estava cheia de vazios. Pessoas vazias, relacionamentos vazios, felicidade vazia. Outro dia, foi parar no hospital, em uma madrugada que parecia eterna. A dor extrapolava… ultrapassou as barreiras do emocional e tornou-se física. Alice percebeu que o vazio dói, de verdade, e que a expressão “o amor machuca” é real. 
Essa é mais uma das incontáveis histórias de draminha romântico adolescente. Afinal, o que é um coração partido em meio à todos os problemas da humanidade, não é mesmo? Na verdade, Alice já teve muitos problemas mais sérios do que esse, e isso é o pior: ela tinha essa consciência. Meses antes, sua mãe estava na UTI à beira da morte, e o desespero do fim do amor ainda doía mais. Dois anos antes, era ela quem estava com problemas de saúde sérios, e mesmo assim o medo da solidão superava o da morte. Alice se culpava por ser tão idiota e sentir muito a mais do que uma coisa tão banal merecia. 
Isso é ingratidão pela vida. “Você tem tudo”. “Todo mundo passa por isso”. “Isso passa rápido”. “Existem problemas bem piores”. “Você tá aumentando”. “Não é o fim do mundo”. Na verdade, era sim. Aquele “tchau” significou o fim do seu mundo ideal, planejado há anos. O popzinho que tocou no carro naquele momento, nem pôde mais ser ouvido. Só a lembrança lhe causava frio na barriga. Um frio na barriga diferente… não se assemelhava às borboletas no estômago do início, era um sentimento contrário à esse. 
Depois do período de luto, Alice decidiu que precisava agir. A ferida precisava cicatrizar. Suas notas não eram mais as mesmas, seus colegas de trabalho perceberam que o rendimento diminuiu, sua família não aguentava mais seus altos e baixos e crises de choro, mas Alice sabia… ela não conseguiria sozinha. Logo ela, que sempre teve controle de todas as situações, precisou abrir mão do orgulho e buscar ajuda. É aí que entra a Cristina. 
No início, existia um preconceito. Afinal, como uma estranha que não convive com ela saberia ajudar em um problema tão… dela? 
Cristina é psicóloga. As rugas nos olhos denunciam uma certa experiência de vida, mas sua fala jamais transpareceria qualquer tipo de pensamento antiquado. Alice, que não chorava na frente de ninguém nem por um decreto, logo no primeiro “oi” desabou em lágrimas. Foram 60 minutos de puro choro, e muito rímel gasto. Na sessão seguinte, uns 55 minutos de puro choro. Até que na próxima, só durou uns 20 minutos. E não é que a torneirinha uma hora fecha? Nessa soma de minutos, Cristina fez com que Alice esclarecesse para ela mesma, o que já estava explícito para os outros, mas ela não enxergava. Talvez pelo excesso de lágrimas nos olhos… não sei bem. A questão é que ela não estava mal pelo seu ex, pelo seu término. Ela estava triste pelos seus planos que agora teriam que mudar. Triste porque agora, não teria mais como namorar por anos e noivar no fim da faculdade, a não ser que ela fizesse outra faculdade, mas não seria a mesma coisa. Ela seria uma mãe velha. As fotos salvas no Pinterest tinham outra lembrança e precisavam ser descartadas por causa disso. Os nomes da beagle também precisavam mudar. Essa mudança de planos doía pra ela, e esse era o problema principal.
Quando Alice aceitou isso, sua vida começou a ir pra frente. Acompanhada de algumas crises existenciais no percurso, mas parece que os caminhos se abriram. Agora o quarto tem fotos com os amigos, e ela percebeu que são bem mais bonitas. Aquele popzinho do carro já voltou pra playlist, ela até canta junto. Também decidiu que ia se dedicar à fazer coisas novas, por menores que fossem. Suas listas agora são outras: coisas que ela quer fazer para si própria. Já foram alguns “checks”, mas faltam muitos. Já colocou uns piercings que tinha medo antes, viajou para uns lugares que são perto da sua casa, mas que nunca tinha ido. Também voltou a se preocupar com a faculdade, meio perdida, mas voltou. Inclusive, em uma matéria que ela precisava entregar um texto autoral, ela decidiu mudar. Geralmente, ela fazia seus textos todos em primeira pessoa, porque era mais fácil. Nesse, ela optou pela terceira e percebeu que ela não tem cara só de Vitória, Alice funcionaria bem também.

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