Novo rumo.

Me lembro de uma aula que tive na faculdade, dois anos atrás. Um professor que eu adoro disse que, para nós, alunos de comunicação, mais do que qualquer pré-requisito estereotipado do tipo: “ser comunicativo”, era essencial que soubessemos amar as pessoas.

Ele não falava desse tipo de amor que a gente pensa quando ouve isso. Na verdade, ele é um solteirão de seus quase 40 anos, bem resolvido e que não parece ser do tipo que precisa demonstrar muito amor por alguém, não. Ele dizia do amor por conhecer as pessoas e por saber de suas histórias. Lembro que como exemplo, ele disse: “Se o seu público incluí um cara da classe C, que pega ônibus lotado às 18h da tarde, vai lá, pegue esse mesmo ônibus lotado às 18h da tarde. Conheça a rotina desse cara, acompanha o que acontece no mundo dele, aproveita e repara em todas as outras pessoas espremidas nesse busão e tenta imaginar a história por trás de cada uma delas”.

Eu não sei bem o porquê, mas essa aula me marcou. Eu sempre fui curiosa, mas não tanto assim. Se eu pegava um ônibus, eu colocava meu fone e no máximo ficava olhando para janela, ou para o meu relógio enquanto contava os minutos para chegar logo.

Nesse ano, eu tive que começar a andar de ônibus, às 18h da tarde. Eu odeio andar de ônibus. Mas estagiária, estudante, sabe como é.

No começo, eu cogitei aproveitar o tempo de trajeto para ler os livros da minha lista e atingir a meta do ano mais rápido. Senti enjoo na primeira página e não risquei nenhum livro dessa lista até agora.

Depois, fiz uma playlist: “ônibus”. As músicas eram algumas das que me acalmavam, para eu não me estressar com as pessoas esbarrando, a falta de lugares para sentar e as freadas bruscas dos motoristas indelicados.

Esses dias, ouvindo algumas das músicas selecionadas, me peguei sem prestar atenção na letra porque estava analisando um senhorzinho de idade que entrou no ônibus com algumas sacolas de mercado na mão, e seus dois netinhos, de no máximo uns 6 anos de idade. Uma menina ofereceu o lugar, que ele sorridente agradeceu e indicou o espaço para a netinha sentar. Quando me dei conta que estava prestando atenção nesse senhor, me lembrei daquela aula. Então comecei a imaginar como era a vida desse senhorzinho, no ônibus das 18h da tarde com seus netinhos. Ele provavelmente ensinava o cavalheirismo à moda antiga para o netinho, afinal o lugar cedido fica para a dama. Olhei as sacolas de mercado já imaginando se ele estava comprando guloseimas para as crianças, como os avôs fazem. Clássico. Quando consegui ver, avistei um pacote de salgadinhos e uma caixinha de Bis. Comecei a reparar na forma que ele olhava com orgulho para as crianças, enquanto dizia para o garoto segurar firme no banco e acariciava o cabelo da garotinha, que batia os pés no ar enquanto estava sentadinha, bem longe de alcançar o chão. Desceram. Coloquei meu fone e tentei parar de reparar nas pessoas, afinal não sou das mais discretas.

No dia seguinte, a mesma história. Quer dizer, outra história. Um homem de seus 30 e poucos anos entra no ônibus e fica de pé ao meu lado. Trajes simples e até meio sujos, provavelmente por conta de algum trabalho. Uma pasta com várias folhas, um livro escolar de matemática e um penal na mão. O que será que o levou a parar os estudos na infância? E mais, o que o incentivou a voltar os estudos agora? Quais serão os objetivos de vida dele? Em meio à esses pensamentos, parei minhas indagações na parada seguinte do ônibus, quando um adolescente com uniforme de um colégio conhecido entra e para do meu outro lado.

Nem consegui ver a cara do garoto, porque ele não erguia a cabeça já que estava com os olhos vidrados no celular. A tela dele estava aberta em uma conversa do Whatsapp. Ele digitava alguma mensagem, enviava, clicava na foto da menina, voltava para ver se ela já tinha respondido, clicava na foto dela novamente, voltava para a tela da conversa, e assim foi por um bom tempo. Confesso que me senti meio bisbilhoteira, mas acredito que ele era apaixonado por essa Amanda. Ou Adriana. Não consegui enxergar direito nem o nome da menina, nem se eram mensagens de declaração de amor para ela, mas eu aposto que sim. Percebi que acho fofo esse amor juvenil quando me peguei soltando um sorrisinho depois disso, e também percebi que preciso urgente encontrar meus óculos.

Outro dia, um moço se destacou logo na entrada do ônibus. Camiseta verde e chapéu estilo Jason Mraz, em meio aos curitibanos com seus moletons e casacos de cores escuras e cheirando à mofo, recém retirados do armário. Além de tudo, esse cara estava com um violão na mão. Se encostou em um canto do ônibus e pediu licença para todos os passageiros para se apresentar. Disse que seu nome é Robson, que ele é gaúcho, tem 3 filhos e perguntou se podia mostrar um pouco do trabalho dele. Começou a tocar e cantar Legião Urbana.

Eu tirei meu fone, e vi vários fazendo o mesmo. Melhor que isso, vi os curitibanos “fechados e antipáticos” cantando junto com ele e aplaudindo com alegria no final. Eu choro com o refrão “Somos tão jovens”, me segurei. Depois disso, vi várias pessoas pedindo músicas. Atendendo à pedidos, ele cantou “Meu erro”, Paralamas. Me segurei de volta.

Enquanto isso, o ônibus fez uma parada. Fiquei observando a reação de quem entrava pela porta 3 e dava de cara com um homem tocando violão. Feições assustadas seguidas de sorrisos e bocas dublando a música foram predominantes. Fones deixando os ouvidos e ocupando os bolsos, ficaram segundo lugar.

No fim dessa música, ele passou com o chapéu na mão e pedindo contribuições: “Só se for algo que não faça falta para você. Pode ser um panfletinho de igreja, um sorriso ou uma bala. Tudo que vem com intenção boa, faz bem pra mim”.

Eu não tinha nenhuma moedinha. Dei um sorriso quando o Robson passou por mim. “Que sorriso lindo moça, brilha mais que qualquer moeda”. Sorri mais. Voltei pra casa sorrindo, sem o fone.

Percebi que estou tão apaixonada pelas pessoas que me deu vontade de escrever sobre elas. Tem tanta coisa que nem coube no textão.

Agora cada viagem no ônibus é em rumo à uma história nova.