Noventa e quatro anos.

Quase noventa e cinco.

Esses dias eu estava na clínica em que a minha psicóloga atende, como faço toda semana. Geralmente eu chego atrasada e vou direto para o seu consultório, mas dessa vez eu cheguei uma hora antes e fiquei na salinha de espera. Eu tinha prova da faculdade de noite, então levei meu caderno e várias folhas aleatórias em que tinha feito anotações pra ficar estudando nesse tempo. Fiquei tão focada tentando me concentrar na matéria que mal levantei a cabeça para olhar em volta.

Mas aí eu ouvi um chorinho de bebê. Eu não me aguento perto de bebês. Aquele resmunguinho fofo tirou toda a minha atenção dos papéis, e acabou de vez quando eu vi que eram dois bebês. Gêmeos. Mesma roupinha. Gordinhos. Eu fiquei me controlando pra não deixar na cara que queria ficar olhando aqueles nenéns o tempo todo, falando com voz aguda e mordendo aquelas dobrinhas, porque alguns pais não gostam de quando estranhos ficam muito em cima dos seus bebês. Ainda mais pais de primeira viagem, e aqueles definitivamente eram pais de primeira viagem. Quer dizer, por enquanto. A mamãe estava com um barrigão, e eu já fiquei pensando que seria lindo se a próxima fosse uma menininha. Fiquei doida pra perguntar, mas me segurei. 
Fingi que ainda estava concentrada nos meus estudos, mas na verdade eu estava ouvindo a conversa deles.

Descobri que os nenéns se chamavam Pedro e Matheus, tinham 7 meses, não eram idênticos (mas pareciam), e que estavam gripados. O Matheus odiava usar touca pra sair do frio e isso dificultava as coisas, enquanto o Pedro nem ligava porque era bem quietinho. Mas o Pedro sujava bem mais fraldas que o Matheus. A doutora chamou e eles entraram no consultório. Ok, agora eu ia me concentrar de volta.

Até que ouvi uns barulhos meio altos no corredor, seguidos de uma voz que disse:

"Hoje tem um bebezão pra consultar".

Ok, mais um bebê, eu não ia mais me concentrar mesmo. Fechei meu caderno. Até que a secretária disse, bem alto:

"Bom dia Seu Arthur, muito frio aí?".

Silêncio. Quando olhei pro lado vi um senhorzinho bem velhinho, mas daqueles bem velhinhos mesmo. Ele estava em uma cadeira de rodas, a responsável pelo barulho do corredor, sendo empurrado por uma enfermeira novinha, toda de branco (descobri depois que era uma das cuidadoras que trabalha no Lar de Idosos do bairro). Seu Arthur não ouvia muito bem, mas ele tinha ouvido aquilo. Ele só não quis responder.

A enfermeira conversava com a secretária da clínica enquanto fazia o cadastro dele, que olhava para um ponto fixo, em silêncio. Disfarçadamente tentei perceber pra onde ele estava olhando, até achei que fosse a televisão, mas não era. Ele olhava fixamente pra uma parede branca, sem nada. A expressão dele não mudava. Ele não era daqueles senhorzinhos fofinhos que dá vontade de abraçar e ficar ouvindo as histórias, na verdade ele me dava um pouco de medo. Usava chinelinhos de vô, meia de vô, toquinha de vô, mas tinha uma cara de bravo que não parecia nada com a de um vô. Abri meu caderno de volta, mas acabei repetindo a mesma coisa: fiquei ouvindo as conversas e não prestei atenção em nada da minha matéria.

"94 anos é muito tempo, né? Ele tá muito bem pra essa idade", disse a secretária.

"Na verdade, ele faz 95 mês que vem. Tenho que ligar pro neto dele pra lembrar disso, porque eu queria fazer um bolinho pra ele lá no Lar", respondeu a enfermeira. Elas falavam em um tom baixinho, pro Seu Arthur não escutar. Ele não escutaria mesmo em um tom normal, mas se escutasse provavelmente não diria nada. Ele não parecia nada bem, nem pra essa idade, nem pra nenhuma outra. Isso que é a longevidade? Quer dizer, ter uma expectativa de vida alta, mas acabar assim à troco de quê? Ele não parecia ter problemas sérios de saúde, afinal estava lá pra uma consulta de rotina com dermatologista só. Ele realmente estava bem (de saúde) pra essa idade. Mas o olhar de Seu Arthur não parecia o olhar de uma pessoa viva de verdade, ele parecia estar simplesmente existindo.

Eu sou dessas pessoas que sempre teve medo da morte. Eu sempre ficava na dúvida sobre o que responder quando, nas brincadeiras com os amigos, perguntavam qual o superpoder que eu gostaria de ter se pudesse. Ser imortal, será? Parecia o mais inteligente pra mim. Mas sei lá, as pessoas falavam que isso podia não ser muito bom, então na dúvida, eu sempre escolhia poder ser invisível porque eu lembrava da capa da invisibilidade do Harry Potter (que sempre achei o máximo).

E olha, é como se Seu Arthur tivesse os dois. Estava lá, quase imortal com seus 94 anos, e praticamente invisível. Isso é o que eu deduzi quando disseram que precisavam lembrar o seu neto sobre seu aniversário. É como se ele fosse um resto de gente, jogado em um lugar onde pessoas têm paciência pra esperar a morte chegar junto com ele. Não dá nem pra dizer que isso era feito pra não ser um peso pra família, porque tadinho... tão magrinho o Seu Arthur!

Mas o doutor chamou, e ele entrou no consultório. Tentei parar de pensar nisso e voltei pro meu caderno.

Fiz umas anotações e até que estudei um tantinho razoável, até os gêmeos saírem da consulta.

A mamãe foi trocar o Pedro no banheiro, ele realmente sujava mais fraldas. O Matheus ficou sentado esperando com seu pai, na minha frente. Na mesma hora, Seu Arthur saiu da consulta com a sua enfermeira. Ela pelo jeito também era como eu, e não se aguentava perto de bebês. Puxou papo, falou com voz fina e ficou tentando fazer cócegas no Matheus pra tirar algum sorriso. Foi tudo em vão. Os olhos daquele bebê estavam vidrados em um ponto fixo: os olhos do Seu Arthur. Ele quase não piscava. Eu achei aquilo muito estranho, porque derrepente o neném parou de ter um olhar que parecia de um neném pra mim. Ele estava tão observador, como se tivesse analisando aquele senhorzinho nos mínimos detalhes, com um olhar de adulto. Seu Arthur, continuava com a mesma expressão, meio apático, meio bravo. Estavam o início e o fim da vida, bem ali na minha frente, e bem ali, um de frente pro outro. Não sei bem o porquê daquilo, nem o que o Matheus estava pensando, nem o que Seu Arthur estava pensando, mas eu fiquei com aqueles quatro olhinhos na cabeça o dia todo.

Contei pra minha mãe que tinha visto uma coisa na clínica que me deu vontade de fazer um texto. Ela acredita no Espiritismo e me disse que, segundo essa religião, é bem possível que os bebês, quando nascem, ainda estejam com o espírito "velho" da vida anterior, então que o Matheus podia ter só se identificado (ou algo assim).

Confesso que eu não sei se eu acredito nessas coisas, mas olha, eu poderia ficar escrevendo sobre como aquilo foi estranho por mais, sei lá... uns 94 anos.

Pensei até em falar disso na consulta com a psicóloga, mas deixei pra lá. Por ora, só espero que Matheus se adapte às touquinhas no inverno e que Seu Arthur sorria mês que vem na hora de comer o seu bolo.