A namorada perfeita

De onde eu venho, ensinam aos garotos a arte da predação sexual e, às garotas, a falta de interesse em sexo. Tão chatinhas, diziam os meninos. Já eu, um fruto que caiu longe da árvore, sempre fui diferente. Eu falava de sexo abertamente. Falava que tinha desejo, soltava piadas sexuais, falava sobre masturbação, falava sobre minhas experiências com outras mulheres… e eles adoravam! Virei amiga deles, até namorei com uns. E eles… eles me amavam. Eu era a diferentona. A legal. A “one of the bros”. A que não se importava com maquiagem ou roupas. A que ria das outras meninas futeis com eles. E eu adorava ser adorada.

Até que eu, por fim, comecei “de verdade” minha vida sexual. Arranjei um namorado. Eu queria fazer de tudo pra ser A Melhor namorada. Não implicava com o videogame, nem com as amizades femininas, nem com os amigos, nem com o futebol… era perfeita. Gemia no sexo, gritava e pedia por sexo todas as horas em que ficávamos sozinhos. Eu era a namorada que ele havia pedido a Deus.

Mas tinha um detalhezinho que passou batido. Ele não percebeu, mas eu não sentia prazer com ele na cama. Eu gemia, gritava, implorava por sexo, mas… eu não tinha prazer. Na verdade, eu até achava que eu tinha, mas eu não sabia (pelo menos até ano passado) o que era prazer. Ele metia, metia, metia. Acabava. Fazia oral por uns trinta segundos. E pronto.

E estava perfeito pra ele. Eu era a namorada dos sonhos. A que qualquer um sonha em ter.

Foi quando eu conheci o feminismo. Foi quando eu percebi que todas as minhas ações foram, desde o meu nascimento, moldadas para satisfazer homens. Foi quando eu percebi que, mesmo quando eu não queria ser como as outras garotas, eu acabava sendo como elas: objetos para o bel prazer masculino.

E eu me senti tão envergonhada. Demorei dois anos na terapia para que finalmente eu pudesse sentir prazer. Foram dois anos horríveis. Eu estava em um relacionamento saudável (após terminar com o anterior abusivo) onde eu finalmente consegui ter um orgasmo que acabou por isso. Acabou porque eu não compreendia que até mesmo o meu orgasmo era voltado para o ego masculino.

Hoje eu compreendo e tento mudar isso. Mas não é fácil. Após quase quatro anos em contato com o feminismo, eu ainda me sinto culpada por não querer fazer sexo em determinado momento. Eu ainda me sinto defeituosa quando não consigo gozar. Eu me sinto quebrada, como um brinquedo com defeito de fabricação.

Mas eu não sou um brinquedo. Talvez eu tenha sido usada como tal, mas eu não sou um. Eu sou um ser humano que, infelizmente (ou não), teve a sorte de ser mulher.

E isso doi. Doi saber que tudo teria sido diferente se eu fosse homem. Doi muito. Doi saber que todo meu destino sexual teria sido diferente se não fosse pelo meu gênero.

É preciso respirar todos os dias e dizer para mim mesma que eu não sou um brinquedo.

Eu me recusei a ser um.