Os poemas a seguir tem a bissexualidade como pano de fundo.
E também como a linha que costura o pano, a agulha, a mesa de costura, a pintura das paredes, o batente da porta, a cadeira, a luz que vem da janela, o cobertor, as meias, os óculos, e, fora do universo metafórico mas nem tanto, a gente.

I.

pra nós tudo que conecta o coração com a mente com as sinapses do cérebro os músculos do corpo a boca
do estômago
é um conceito
a frequência da cor rosa é um enigma que ninguém entende como olhos humanos desvendaram
aqui a gente é roxo de
possibilidades
conforme pisco o mundo se desdobra…

espero que o tempo exista só pra você me provar sobrevivendo
aqui eu não respiro direito
espirro demais, sinto a cabeça latejar
com as preocupações

querida eu do futuro
toma um suquinho de maracujá por nós.
eu tô querendo tomar um chá de sumiço 
de tão desarrumados que os cômodos na casa de meu corpo estão 
tudo dói e tudo não dói o suficiente
eu nem fiz nada mas
você sabe disso
você sabe o que eu deixei pra lá 
o que eu deixei cair
as toalhas que eu joguei

querida eu do futuro
não olha pra trás 
mas se olhar, olha pra mim com o carinho que eu não consigo me dar

querida eu do futuro 
daqui eu te imagino existir sem ter que se esforçar tanto
aí eu espero estar tudo bem

Venho me questionando há bastante tempo de onde surgiria a culpa e a vergonha caso a misoginia, o racismo, a LGBTfobia, o classicismo, e tantas outras coisas, não existissem. Se não fossem elementos chave pra gerar e impor tais sentimentos.
Decidi parar de acreditar que guilty pleasures existiam por ter começado…

Minicontos Apocalípticos (Mais ou menos de Terror)

I.
Chove torrencialmente. Nós submergimos. As luzes se apagam e toda a ajuda se esvaiu. Correndo escada acima, trope
ço 
tro
peço 
t
ropeço 
mas nunca na porta de casa.

II. 
O tempo voa, exponencialmente. A ruína de criaturas inconcebíveis inverte a gravidade. As luzes se apagam e todo o murmúrio delas transforma os olhos da juventude em fumaça cinza.

III. 
Grito e grito e grito, até ficar rouca.
Me arrependo quando uma sombra finalmente escuta.

IV.
Depois que chegamos no topo da montanha e o sol se põe e tudo está quase acabado, ele segura meu rosto com ambas as mãos. Acho que vai me consolar, mas ele sussurra com um sorriso enquanto seu rosto muda: "Te peguei."

Representatividade e as narrativas que a gente sempre mereceu

Quando eu era mais nova, eu era sedenta por referências, muito mais do que sou hoje, só que com muito menos consciência disso. Como qualquer pré-adolescente e adolescente, eu tinha assistido muitos dos filmes que passavam na TV aberta, e a…

a boca é da cor errada
os olhos muito escuros
a pele calculadamente maculada.
o corpo, como um todo, é reciclável, ainda bem
mas descartável principalmente.
qualquer pedaço seu eles acham ser disponível, aberto ao público,
uma praça, uma passagem, um rito de iniciação.
vão te propor muitas coisas, a maioria esdrúxulas,
e nenhum consolo.
seu corpo vai ser cadáver vivo,
e vão querer desecrá-lo sempre,
independente de quão abertos seus olhos estejam,
quão fechada, pra qualquer coisa que não o afeto, você esteja.

pega o corpo de volta.
banha ele no sol, na certeza de dias melhores,
recostura as feridas e
reconstrua cada parte
até que ele seja seu de novo.
dança sozinha mesmo, a música no último volume.
se traz de volta ao mundo dos vivos e
se for para morrer, que seja de auto-amor.

Vitória Matos

tentando escrever fora da minha cabeça

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