O riso da Região Metropolitana de Porto Alegre

Vitor Lacourt
Aug 25, 2017 · 9 min read

A visão de donos de bares e de comediantes sobre a comédia na Região Metropolitana de Porto Alegre.

Lugar onde todo comediante de stand up quer estar: o palco

Parece recente no Brasil, mas José Vasconcellos, Jô Soares e Chico Anysio introduziram o gênero de comédia stand up no país, mesmo não tendo a noção do nome. Não há exatidão de como surgiu esse tipo de comédia mundo afora. Aqui não é diferente. Diogo Portugal, Bruno Motta, Marcelo Mansfield, Nany People, Marcela Leal, Márcio Ribeiro, Rafinha Bastos, Danilo Gentili e Léo Lins, são alguns dos nomes que marcaram a geração que denominou esse estilo de comédia no Brasil. Alguns despontaram em programas televisivos: Rafinha Bastos no CQC, Marcelo Mansfield e Leo Lins no Agora é Tarde, Nany People no Programa da Hebe e Danilo Gentili no The Noite. Isso atraiu consumidores do gênero, divulgando-os no cenário nacional.

Apesar de fazer muito sucesso em São Paulo, Curitiba e outras cidades do país, Porto Alegre e Região Metropolitana não engrenaram nesse sentido. Bares como o Hooroo — Australian Pub (Bom Fim, Porto Alegre) e restaurantes como o Pampa Burger (R. Vicente da Fontoura, 1804 — Santa Cecilia, Porto Alegre) desistiram da ideia de sediar o estabelecimento para comediantes de stand up. Os motivos justificados para a desistência são diversos, a falta de movimento e até mesmo o barulho implicam no seguimento das apresentações.

Wilson Rosa tem 39 anos e nasceu em Porto Alegre. Começou a se interessar por comédia quando morava em São Paulo. Isso foi em meados de 2008–2009. Tocava violão em bares e alternava entre uma música e uma piada. Começou a contar mais piada do que tocar música. Após ter um problema de doença na família, voltou para Porto Alegre definitivamente. Recebeu um convite de um amigo para participar em um show no teatro da Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS), cujo nome era Clube do Riso. Gostou da experiência do teatro e não parou mais. Fez show solo naquele mesmo ano, alugou um espaço e vendeu ingressos para amigos. Resolveu viver disso e, de lá pra cá, só tem feito stand up, personagens e paródias. Ao ser questionado se era humorista ou comediante, Wilson responde que é as duas coisas. O comediante é o cara que conta a própria piada e o humorista aquele que interpreta uma piada. Ele faz as duas coisas. Gosta de brincar nas duas áreas.

- Eu faço um personagem e conheço uma piada que encaixa super bem com ele. Vou fazer aquela piada. É necessário quando você tem o jeito de contar essa piada e às vezes até melhorá-la com alguns argumentos próprios. Acho legal e uso quando precisa. Paulinho Gogó e o Matheus Ceará, ambos da Praça é Nossa, usam bastante disso em seus personagens. Pegam uma piada antiga e colocam alguns elementos no meio, encenando aquela história.

Wilson Rosa é otimista em relação à comédia na Região Metropolitana de Porto Alegre, mas assume que ainda falta muito até chegar ao nível de Curitiba e São Paulo, por exemplo.

- Os bares de lá fazem comédia de segunda a segunda. Acredito que aqui há um caminho para percorrer que em três anos teremos uma cena boa. O que nos falta hoje aqui é material humano.

Se acontecer um desenvolvimento do stand up na região e todos os bares se interessem por esse projeto de curtir uma noite de comédia, Wilson afirma que faltaria comediante aqui para suprir essa demanda. E outra: Porto Alegre não tem um comedy club. São Paulo possui o Comedians, o Pikadero Fun House e o Beverly Hills; em Curitiba, o Curitiba Comedy Club. A comédia ainda engatinha aqui.

Que o gaúcho é bairrista ninguém duvida, mas Wilson não vê isso relacionado à comédia. Guri de Uruguaiana, Cris Pereira e Paulinho Mixaria poderiam ser exemplos de bairrismo, pois fazem absoluto sucesso com conteúdo gauchesco.

- Não vejo muito dessa forma. Eles galgaram um público. Foram conquistando aos poucos e ninguém começou lotando o teatro. Há alguns humoristas que fazem frequentemente shows em bares, que cativam cinquenta pessoas e fazem dois bares com mais cinquenta pessoas na semana seguinte. Aos poucos, o perfil no Facebook aumenta, por exemplo. Vai evoluindo. Daqui a pouco tem uma gama imensa de seguidores, o comediante começa a alimentar esse trabalho, postando vídeos, interagindo com essas pessoas e quando tiver um teatro, esse pessoal automaticamente vai assisti-lo. Gaúcho é bairrista, mas não é tanto assim.

Wilson teve oportunidade de se apresentar com bastante gente em alguns dos bares que foram citados no terceiro parágrafo. Como não era o comediante que os produzia, não soube dizer qual foi o momento em que desistiram da ideia. Ele mostra os dois lados da moeda. O comediante precisa de um público para fazer rir, já o dono do bar precisa de um público para manter o bar. Hoje, a mentalidade do dono de bar é que ele vai levar um comediante e esse comediante vai trazer o próprio público.

- Esse pensamento é errado. Ele deve pensar ao contrário. Ele tem que ter um bar movimentado e que vai levar uma atração especial ao público dele. Assim como o bar bota um jogo de futebol e música. Exemplo: o bar x tem sertanejo na quinta, pagode na sexta e MPB no sábado. E o cara que não gosta do sertanejo, pagode e MPB? Ele vai aonde? Não tem uma atração que ele curta.

O comediante lembra que o público do humor não seleciona gênero, diferente da música. A música seleciona o público. A comédia não.

- Essa é a grande sacada que os donos de bares ainda não se ligaram, mas provavelmente notarão. Também vão perceber que o cara que vai assistir a comédia no bar não vai sozinho. O que curte sertanejo vai beber, “descornado”, e achar que está bom para ele.

Casamento, trabalho, família pobre, família rica, ou até mesmo da política, que é um prato cheio. Estes são alguns elementos que habitam a cabeça do comediante. Ele percebe o que as pessoas não percebem e tenta transformar tudo isso em graça.

- A minha vida é uma comédia. A vida de todos nós é uma comédia. Quando consegue transformar uma história em gargalhada ao público que está assistindo, significa que o caminho está certo. Não me vejo fazendo outra coisa na vida sem ser a comédia. Me vejo contando piada, fazendo paródias e personagens daqui a trinta anos, independente do meu estado físico ou mental. A comédia faz parte da minha vida.

Wilson Rosa durante apresentação

Ruan Vitello nasceu em Canoas e tem vinte e cinco anos. É dono do Texas Pub (Rua Mathias Velho, 612, Canoas) e teve a ideia de comprar o bar porque aceitou a oportunidade de ser empreendedor quando encontrou o estabelecimento que estava à venda. Com a antiga administração, funcionava desde setembro de 2016. Passou a funcionar com a administração dele a partir do dia 3 de março desse ano.

- Aconteceram algumas reformas. O nome sempre foi Texas. A temática do bar é texana. Estamos com projetos de colocar cactus e fazer mais umas modificações. Tem alguns pratos típicos também.

O bar realmente tem a ver com o Texas. Móveis rústicos marcam o estilo country do estabelecimento. Recebem música ao vivo em diversos dias da semana. Mas uma nova aposta já se constrói no local.

- Nós começamos a receber comediantes em abril. Já recebemos o primeiro show antes de fecharmos um mês. Pretendemos seguir. Estamos com o projeto de um curso de stand up. São três apresentações classificatórias.

Ruan ressalta que o stand up dá um bom retorno e bem mais que o músico, por exemplo. Seu público recebe muito bem esse tipo de show. O público é mesclado, ou seja, parte frequenta o bar e a outra parte é fã do comediante. O pessoal que frequenta o local no dia do evento, vai pelo show de comédia. A maioria é casal ou namorados. Solteiros também se interessam, mas a maioria é casal.

Assim como outros donos de bares, Ruan também acredita que a falta de cultura do gaúcho e até mesmo do brasileiro influenciam na decisão dos donos.

Os móveis rústicos do Texas Pub

Léo Costa tem 22 anos e nasceu em Porto Alegre. Descobriu que queria fazer comédia quando começou no teatro. Tinha dezessete anos e todas as vezes que colocava comédia nas peças, gostava muito do retorno da plateia. Começou a escrever roteiros de esquetes de humor para a internet em um canal conhecido como Hilarius TV. Durou um ano o projeto. Fazia vídeos toda semana e roteirizava a maioria deles. Depois que acabou o projeto, sentiu a necessidade de continuar fazendo aquilo que gostava. Começou a fazer personagens no teatro. Fez durante oito meses e depois migrou ao stand up, onde está há quase dois anos.

Léo, assim como Rafinha Bastos e Nando Viana, migrou para São Paulo visando sua carreira profissional. A primeira diferença que notou indo para São Paulo é que existe um respeito entre todos os comediantes, independente do estilo de cada um. Existe uma parceria entre todos eles. No sul, existe uma espécie de bipolarização, onde se fecham “turminhas” e as mesmas só trabalham entre si. Isso acaba refletindo também na negociação com o bar. O dono acaba desvalorizando o stand up justamente pelos próprios comediantes não se valorizarem. Ou é uma coisa muito cara de se produzir, como no caso do Cris Pereira e do Guri de Uruguaiana, que são caras que têm o cachê muito alto para o bar, ou existem muitos comediantes fazendo por muito pouco, que resulta em não conseguir viver de comédia. Geralmente esses últimos possuem outros empregos, não dependendo só da comédia.

- Em São Paulo, existe muita gente que consegue se virar com isso. Já tem demanda, bares de comédia, cena construída há quase dez anos. Começou em 2009, com vários grupos de comédia, como o Comédia em Pé lá no Rio, o Marcelo Mansfield em São Paulo, caras que já tinham notoriedade na TV. Isso ajudou um pouco também. No sul, se houvesse um bar só de comédia, iniciaria uma referência no sentido de trazerem comediantes consagrados e os emergentes se espelharem neles. Poderia começar a ser uma segunda Curitiba, que tem poucos lugares, mas que funciona. No sul não tem essa didática das pessoas saberem a diferença do stand up para o personagem, por exemplo.

A mudança é evidente na vida de Léo. Cada mês ele tinha a oportunidade de fazer três ou quatro shows em Porto Alegre. Tinha meses que não conseguia fazer nenhum, pois não conseguia vender show. Lá, consegue show toda semana. Está buscando fazer produções próprias, mas existe agenda de segunda a segunda, tanto São Paulo quanto Sorocaba e Guarulhos. Fez show para cento e cinquenta pessoas em Sorocaba. É uma coisa quase impossível de conseguir em Porto Alegre. Está buscando fazer nos teatros a partir de julho e outros bares para completar a agenda. Já tem um fechado em Osasco que fará mensalmente, outro em Guarulhos e outro em São Bernardo. Há oportunidades, mas é um trabalho difícil.

- Precisa peneirar bastante e construir o público para investir na carreira. Em São Paulo, as pessoas te valorizam mais como artista. Enquanto na maioria dos bares a gente fazia show de stand up e o público nem prestava a atenção. Rola até uma admiração, independente de não conhecerem o teu trabalho. Depois de te verem no palco, começam a te acompanhar. Notei bastante essa diferença na cultura da cidade.

Teatro também é uma coisa difícil na Região Metropolitana de Porto Alegre. Os teatros, ou são muito grandes, ou se pequenos, não possuem uma estrutura boa. Às vezes, as pautas são muito caras e as negociações difíceis.

- Conseguimos teatro de cem lugares com uma estrutura boa e um custo não tão caro. Tenho feito bastante teatro.

Léo Costa em ação

A Bárbaros Cervejaria fica na Rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre. Contam com música ao vivo, feiras de disco de vinil e karaokê. Possuem o projeto Ceva com Risada e costumam receber um comediante por mês. No próximo mês, acontecerão dois dias de shows com três a quatro comediantes por noite. Contam com diversos eventos no Facebook. No início, assim como qualquer projeto, o stand up não dava tanto retorno, depois começou a engrenar. Fortificaram o projeto ao trazer comediantes com nome no cenário nacional. Querem abrir o leque para outras apresentações de humor.

A região ainda está se criando nesse sentido. Os gaúchos ainda não aderiram à cultura do stand up, mas o cenário está em constante transformação. Investimento também é um fator fundamental, já que muitas vezes, um bar sozinho não dá conta do valor, procurando parcerias. A Região Metropolitana de Porto Alegre precisa ser mais alegre.

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