Olho inchado

Vitor Lacourt
Aug 23, 2017 · 4 min read
Praticamente caolho

Entrando na academia para mais um dia de treino pesado pela manhã, me deparei com um só rapaz no local. Eu o conhecia da sala das artes marciais, sempre me pareceu bem arrogante. A academia estava bem vazia em relação ao horário que eu faço diariamente.

- Aparelhos liberados — pensei com alívio. Um dos motivos em que desisti da academia nos primeiros anos era toda aquela disputa pelos aparelhos. Tem gente que ia só pra mexer no celular e tirar foto. Eu ficava indignado.

Conforme fui caminhando até o vestiário, o cheiro da ferrugem já entrava em minhas narinas.

- Nunca vou me acostumar com esse odor — falei em voz alta, tentando puxar papo com o cara. O sujeito parecia malhar pesado e estava muito concentrado. Fiquei no vácuo. Faixa roxa de jiu jitsu, ele parecia estar puto com a vida. Nem julguei muito, meu humor também não é um dos melhores pela manhã. Era barbudo, careca e conforme fazia esforço nos aparelhos, suas veias do crânio saltavam. Achei que ele ia explodir. Malhava com raiva. Fui até o vestiário, troquei a calça de moletom por um calção do Grêmio e coloquei uma camiseta cinza bem velha, de algodão.

Dia de peito e bíceps. O grupo de músculo que mais gosto de malhar. O supino é desafiador. No início eu só conseguia levantar a barra. Era constrangedor. Hoje em dia já levanto 50kg facinho. Ainda acho pouco. Malhar causa vício em desafios. Sempre estou querendo aumentar o peso quando vejo que o exercício ficou fácil. Certa vez um instrutor me disse que também era válido trocar o exercício do mesmo músculo. Aceitei o conselho, já que eu não manjava nada de musculação.

Ia começar a minha sequência. O sujeito estava exatamente no mesmo aparelho que eu ia começar. Ok. Iniciei pela segunda etapa do meu caderno de exercícios. Não estava acostumado em começar com aquele, mas beleza. Acabei e estava indo para o supino. O sujeito me puxou pelo ombro e se meteu na minha frente.

- Primeiro sou eu — falou com uma voz muito grossa. Parecia que estava forçando.
- Tudo bem, a gente reveza — falei tentando descontrair a situação.
- Não revezo com frango, é humilhante! — disse me encarando e chegando perto de mim.

Eu já não entendia mais nada. Não deixei quieto. Ele era muito maior que eu. Tenho 1m82cm e ele devia ter os seus 1m95cm. Minha cabeça batia no peito dele. Eu não tinha chances, mas não recuei.

- O QUE VOCÊ FALOU? — tentei falar com uma voz mais grossa e alta do que a dele.
- Eu NÃO revezo com frangos, principalmente você! — ele insistiu.
- Tá pensando que é quem, cara? — questionei de forma intimidadora.
- Sou alguém que você não é, seu fracote! — falou isso se dirigindo ao supino.
- Sim, você é um filho da puta! Isso que você é. — acabei a frase e me arrependi até o último fio de cabelo.

No exato momento em que falei isso, ele estava sentando para depois deitar no supino. Ouviu isso, retornou o olhar para mim, se levantou e me encarou. Eu tremia. Não devia ter falado. O cara era muito maior que eu. Certamente não esperava essa minha atitude. Ele sabia que eu o conhecia. Duvidou da minha loucura ao mexer com um cara daquele tamanho.

Enquanto minha mente se arrependia, fui interrompido com um soco direto no olho. Meu cérebro balançou. Tudo ficou em câmera lenta e depois preto. Fui parar na prateleira das anilhas. Perdi os meus sentidos. Derrubei tudo. Já não sabia onde estava e nem quem era depois daquela marretada. Não conseguia me mexer. Ouvia a minha respiração. Fiquei uns 15 segundos nessa. A visão preta lentamente se tornava embaçada. Comecei a recuperar meus sentidos. Olhei no espelho da academia e vi que o meu olho esquerdo estava terrivelmente inchado, impedindo 50% da minha visão. Eu vi o careca brutamonte se aproximar. Ele vinha para acabar o serviço. Ia me surrar até a morte.

-Vou te matar! Ninguém me chama de filho da puta! — vinha em acelerado aos berros.

A minha preocupação era de alguém separar aquilo. Ninguém chegava. Estávamos sozinhos. Aliás, como a academia estava aberta? Quem tinha aberto? Será que o brutamonte estava com a chave?

Eu, ainda zonzo pós-soco, não sabia o que fazer. Pensei em correr, mas ia me esbarrar em algum aparelho e seria pior. Olhei para o lado e vi a pilha de anilhas que derrubei. Ele vinha correndo gritando. Parecia um bárbaro. Me agarrei na anilha de 20kg e tentei levantá-la com uma mão. Não consegui. Olhei e vi uma de 5kg logo abaixo. Essa já faria um estrago. Quando chegou na minha frente eu só levantei a mão em direção à têmpora dele. Foi forte. A pancada foi tanta que ele caiu reto no chão. Não sei se não matei o cara. Foi como desligar um PC direto na tomada. O jeito que ele caiu no chão foi aterrorizador, mas me senti invencível e vitorioso. Saí correndo da academia e fui pra casa.

Acordei hoje de manhã e que sonho louco!
O olho inchado? Terçol.

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    Vitor Lacourt

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    Jornalismo - PUCRS

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