Branco

Estou cansado,
Cansado,
Cansado.

Que um dia na vida, todos se cansam.
Estou cansado de assinar papéis, e de representá-los.
Estou cansado de comprar anéis, para depois tirá-los.
Estou cansado de sonhos fiéis, se posso matá-los.
E de viés, estou cansado de mim.
Quero rasgar-me,
Quero zerar-me,
Quero deixar-me,
Sem fim.

Volta amanhã, realidade.
Liga mais tarde, vida.
Descansa-te um pouco vaidade,
Estou cansado, de saída.

Quero morar para sempre no branco:
Da fronha, do seio, do ventre, do lenço.
Pois hoje sou o mais profundo pranto:
Da alma, do nada, de Deus, e do Tempo.
Que me concedam Destino Santo:
De Judas, de Pedro, de Nietzsche, ou de Dante.
E façam-me estrela no horizonte:
Da Terra, de Vega ou de Lua distante.

Quero esquecer-me da vida:
Por amnésia ou eutanásia.
Quero fazê-lo simples:
Sem dialética, ou didática.
Quero a porta de saída:
Talvez sem ética na prática.
Quero uma rústica partida:
Pelo etílico ou metálico.

Quero um sumiço permanente:
Do metabólico degradante.
Quero fazer-me inexistente:
Mesmo que vivo mais’adiante.
Quero o retorno para o branco:
Sem mais dinâmica complexa.
A chave pro fecho do tranco
Desta metástase corpórea.

Um abandono repentino
Dos devaneios mais lisérgicos.
Um corpo morto de menino
Onde repousam sonhos lúcidos.
Adeus honesto e genuíno
De atos pobres e letárgicos.
E um suspiro, frio e fino
Pelas vontades diabéticas.

Uma sentença irrecorrível
De uma pena fatalíssima.
Uma doença incurável
Que traga morte digníssima.
Uma’esperança sempre imóvel
De que talvez serei o próximo.
E uma matança insolúvel
De todo luxo e gosto pródigo.

A despedida, talvez, última
Dessa razão entendiante.
Fuga covarde, sempre gélida
Da sensação de estar presente.
Cadáver duro, cru e pálido
Do que’era antes ser pensante.
E adeus ao desespero sórdido
Que atormenta a qualquer ente.

Quero um aborto irrecusável,
De’um silogismo enigmático.
Quero homicídios invisíveis,
Desses pleonasmos tão patéticos.
Um latrocínio indefensável,
Do meu cinismo catastrófico.
E suicídios bem risíveis,
De meus suspiros tão poéticos.

Quero o retorno ao Branco,
Ou que devolvam o encanto
A este mundo policrômico.

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