A luz se foi

Vitor MNG
Vitor MNG
Aug 31, 2018 · 3 min read

Essa seria uma baita frase pra dar início à crônica — é ao mesmo tempo poética e alusiva à inúmeras interpretações — , pois bem, de fato “seria”, não fosse o simples fato que ela foi escrita de forma a ser absorvida em sua forma mais rasa, sim, a rua inteira está no escuro, estamos sem energia elétrica. Estamos todos à mercê de uma única opção: procurar por algum feixe de luz dentro da própria cabeça. Só o que se pode fazer de fato é engolir e mergulhar nessa jornada tão temida que é acabar num beco sem saída onde o único refúgio é o próprio mar.

Mesmo que de forma não intencional, eventualmente voltaremos ao ponto de partida, retornaremos ao estágio da tábula branca;

Pois é, camarada! Agora somos apenas você e eu! Há quanto tempo não encontramo-nos à sós?

No imediato segundo que sobreveio o apagar de tudo no raio, surgiu o anseio de estar com sorte e, ao ir verificar a caixa de disjuntores, encontrar um deles desligado, incorporando o papel de vilão, pronto para ser o gatilho que culminaria num infarto. A realidade, sempre sagaz, foi ainda mais tirana. Andei, devagarzinho, até a janela para encarar o que viria a ser a cartada final: todo o bairro, incluindo eu mesmo, mergulhou de cabeça nesse oceano de provação— num mergulho forçado, inconsequente, quase como uma via sacra do mundo moderno.

Quando foi a última vez em que você esteve na presença de nada além de você mesmo? Desafio-te a responder esta problemática com precisão.

Se você foi capaz de entregar uma resposta certeira e sem muito esforço, deixo aqui minhas congratulações; ganhaste uma estrelinha como prêmio. Agora peço que aguardes em reflexão.

Doravante dirigir-me-ei aos meus semelhantes, àqueles que, independente do motivo, falharam em alcançar tamanha elevação que é tal resposta. Nos abracemos e sejamos solidários uns com os outros.

Solidariedade costuma ser um predicado bastante presente nas nossas vidas por, em suma, sermos altruístas em níveis que há muito já deixaram de ser saudáveis e, presente, acaba por se perpetuar — em elevadas porcentagens, diga-se de passagem — como mais uma forma de fuga do encontro de um consigo mesmo.

A jornada de ir de encontro com os próprios devaneios pode ser comparada, de forma simples e quase lúdica, à uma fera que tem uma jaula como claustro. Maior o esforço para reforçar as grades da jaula, maior a ira da fera — e vice-versa. Contudo, cedo ou tarde, as grades perderão a capacidade de cercear a fera e, dessa forma, assim que a mesma elevar-se à liberdade, os danos serão catastróficos.

Em contrapartida, caro leitor, por menos pensável que seja, existe um desfecho ainda mais danoso. Intenso será o labor a fim de conter a fera que, esta, exausta, abraçará a derrota e abandonará a guerra em busca da liberdade.

Quão sinuosa é a estrada para o ponto de partida? Quão assombrados são os inúmeros túneis pertencentes ao topo do corpo? O maior inimigo do homo-sapiens é, antes de nada além, o próprio homo-sapiens. O bicho-papão de cada um é saturado de cores e, concomitantemente, em escala de cinza; é hiper e nano; é nítido e amorfo. Ele é exatamente tudo, porém nada. Impossível de descrever; impossível de decifrar; impossível de derrotar.

De quando em vez acabamos por nos defrontar, sem possibilidade alguma de redenção, com a parte de baixo da cama — a morada do bicho-papão.

Tu és o bicho-papão.

Eu sou o bicho-papão.

Por terra fez sua residência. Vacilante ambiente. Quase tão escuro quanto um bairro sem luz.

    Vitor MNG

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