RESENHA: Hillsborough, The Truth — Phil Scraton (2016)

SCRATON, Phil. Hillsborough — The Truth. Nova Iorque: Penguin Random House, 2016. 496 p.
Phil Scraton é um professor emérito de direito da Queen’s University Belfart. Identificado como pesquisador social tem trabalhos variados sobre marginalização, conflitos, criminalização e justiça social. Nascido em Wallasey, Merseyside, o autor inicia a obra em 1999 em meio a uma luta persistente das familias por justiça. Scraton é conhecido principalmente pelos seus trabalhos investigativos sobre as diferentes versões sobre o caso ao longo dos anos. Em 2016 foi premiado pelo prefeito de Liverpool, Joe Anderson, com o Freedom of the City — honra concedida por um município a um membro valioso da comunidade, uma celebridade ou a um visitante digno.
No dia 15 de abril de 1989, Liverpool e Nottingham Forest se enfrentaram pelas semifinais da FA Cup. Apesar de estar em muito maior numero, a torcida do Liverpool foi direcionada ao Leppings Lane, um setor muito menor que não suportava metade da capacidade necessária para os fãs do Liverpool. Com a arquibancada superlotada, os torcedores foram prensados contra as grades de proteção atrás do gol de forma a causar uma tragédia de 96 mortos e centenas de feridos. Portanto, com três novos capítulos após a conclusão dos inquéritos, essa é a quarta edição do livro de carater investigativo que destaca as controvérsias dos documentos apresentados pela policia ao longo dos anos, apresentando erros no sistema de segurança e organização e defendendo a justiça.
Phil Scraton desenvolve o titulo da obra “Hillsborough — The Truth” inspirado na capa do jornal The Sun que o utilizou para descrever a tragédia dias depois do ocorrido. A capa polemica até hoje é lembrada pelos torcedores do Liverpool, pois ela contava a versão da policia que incriminava os torcedores dos Reds. Ao longo do texto, o autor segue uma ordem cronológica. Inicialmente, Scraton contextualiza o futebol na década de 1980 com o Desastre de Heysel em 1985, os hooligans, a infraestrutura precária dos estádios, as grades para impedir invasões ao gramado, o abismo social crescente e a ex-primeira ministra Margareth Thatcher.

Logo em seguida, o livro expõe a animação dos torcedores do Liverpool que percorreram mais de 100 km até Sheffield para assistir o jogo em Hillsborough em meio a transito, agitação, bandeiras e festa. O Liverpool era uma equipe imbatível ainda prolongando seus anos de gloria da década de 70 e 80 mesmo que seu maior ídolo, Kenny Dalglish, agora estivesse como treinador-jogador.
Porém, como já era noticiado nas rádios, o jogo era de uma dimensão enorme e tinha o inexperiente David Duckenfield como chefe da polícia de South Yorkshire. Minutos antes da partida, milhares de torcedores do Liverpool com ingresso do lado de fora do estádio do Sheffield Wednesday. Com a situação fora de controle, Duckenfield ordenou que abrissem os portões.
O jogo já havia começado e a torcida ainda estava se acomodando. Dentro de poucos minutos a situaçao estava incontrolável. Não era a The Kop em Anfield para suportar toda aquela massa vermelha. Então iniciaram os gritos de desespero. A torcida avisou aos jogadores que alertaram o arbitro. Com a superlotação, as pessoas morriam asfixiadas contra as grades de proteção e pisoteadas em meio a multidão. A partida foi paralizada, policiais e reporteres tentavam cortar as grades com o que tinham. Torcedores da arquibancada superior retiravam outros da de baixo. Como dizem os testemunhos, o caos era total.



Então, os relatórios policiais passaram a apontar que hooligans fãs do Liverpool bebados tinham forçado entrada pelo portão C e que estavam urinando nos policiais, batendo nos seguranças e bombeiros. Assim foi apontado o fechamento do caso. Tal decisão foi apoiada por Margareth Thatcher que desejava acabar com os sindicatos e diminuir os subsídios do governo para a indústria de uma cidade que ainda sofria com desemprego, contava com muitos imigrantes e que, apos Segunda Guerra Mundial, teve que passar por uma reconstrução — sendo que não conseguiu voltar ao seu antigo patamar.
Além disso, algumas pessoas resgatadas por pessoas comuns e por funcionarios da imprensa tiveram a chance de sair das arquibancadas e esperar por atendimento no campo. No entanto, o acesso aos medicos não foi rapido e imadiato. Muitas ambulancias ficaram paradas devido ao numero de veiculos nas ruas. As pessoas estavam sendo examinadas em campo mesmo. Assim, as vidas de muitos foram perdidas por falta de eficiencia.

Em meio a raiva e tristeza, aos poucos, o numero de mortos alcançou os incriveis 96. A televisão e a radio, quando recebiam a confirmação, enumeravam as vitimas como forma de avisar os familiares. Ademais, as pessoas também tinham a possibilidade de identificar conhecidos pelas fotografias.
O quinto capitulo, tem um espaço ainda maior para os depoimentos das vitimas e das pessoas afetadas pela tragedia.
A policia teve que justificar-se pela situação. Eles então apontaram o consume de bebidas alcoolicas, o arrombamento dos portões do estádio, omitiram importantes provas em forma de imagens das cameras e acusaram a Anfield Army de entrar sem ingresso. As noticias se espalharam por grandes jornais ingleses: Manchester Evening News, Sheffield Star, entre outros. Liverpool Daily Post criticara as acusações, mas com John Williams escrevendo com bastante clubismo e histerico. Então dias depois o The Sun estampou em sua capa “A Verdade” e com a versão da policia, acusava o Liverpool de todos os pontos ditos por quem estava no serviço naquela semifinal. Somado a isso, Margareth Thatcher visitou os hospitais e tambem posicionou-se contra o clube.
Mais de um ano depois do ocasião, com o clima de investigação da epoca e informações sobre os relatorios policiais, as familias passaram a reconhecer de forma ainda mais intensa as controversias entre os casos quanto a “como”, “quando”, “onde” e “quem”. As evidencias, simplesmente, não se sustentavam. Os relatorios de agentes foram alterados para remover comentarios desfavoraveis e nunca houve provas quanto a influencia de bebidas alcoolicas
Peter Taylor, chefe do Judiciário Britancio, apresentou um relatorio sobre os esmagamentos, o empilhamento de corpos, os desacordados e a abertura dos portões a fim de mudar de vez a experiencia do futebol ingles e abolir os alambrados a acomodar os torcedores de maneira que eles estejam sentados.
Nos anos seguintes foi concluido que Duckenfield sabia dos riscos a respeito da tentativa forçada de abrir o portão C e desafogar a aglomeração do lado de fora de Hillsbourough. Houve descaso no socorros e falta de preparo. Em 1994, a biografia de Brian Clough apareceu no Daily Mail com a parte em que o ex-técnico do Nottingham Forest culpava os torcedores do Liverpool pelo acontecimento. O autor do livro era um colunista do The Sun e os animos esquentaram ainda mais enquanto os debates controversos aconteciam na Casa dos Comuns. Clough foi dado como alguem sem coração que trazia de volta “velhos fantasmas”


Em 1996, Jimmy McGovern resolveu fazer um documentário dramatico chamado Hillsborough” que em meio a criticas conseguiu surpreender positivamente ao expor a situação da sala de controle e os detalhes das entradas do dia 15 de abril. Então o Daily Mirror já estampara uma capa de jornal com “Hillsborough, The Real Truth” fazendo relação com a capa do The Sun de 1989.
Scraton se posiciona de forma critica a decisão do juiz Murray Stuart-Smith, que ao reexaminar o Relatório de Taylor, em 1997, concluiu que não havia problemas com a maneira como o inquérito havia sido tratado. Isso fez as famílias do desastre de Hillsborough sentirem-se em outro momento de acobetamento. Alem disso Stuart-Smith diz que a Policia de South Yorkshire já havia pagado uma compensação sobre os danos causados. Por fim, Scraton pontua que 41 dos 96 mortos poderiam estar vivos caso tivessem uma efetiva resposta da emergência e que o juiz não agiu nenhuma vez de maneira informal com as famílias que visitou — não contactou nem 50% das afetadas.
A câmera 5 não funcionava normalmente no dia segundo a policia e os médicos afirmavam que as pessoas morriam no momento do acontecimento ou algum tempo depois da medicação ou tratamento medico sem sucesso. No entanto, apenas 14 dos 96 mortos foram levados ao hospital antes de vir a óbito. Stuart-Smith rejeitou isso indicando que a acusação não se sustentava e também rejeitou testemunhos de vitimas sobreviventes.
Desastres fazem bem a televisão e, por esse motivo, Stuart-Smith já esperava uma cobertura marcante nos anos próximos ao completar uma década. Por isso, foi informado para Richard Wells (chefe da policia de South Yorkshire) a necessidade da alteração dos documentos , a alteração de comentários e opiniões em busca de um padrão contra as centenas de pessoas. Outros foram vetados, visto que a investigação de West Midlands era esperada. Estavam na defensiva.
Não funcionou e viralizou nas rádios. “Pessoas foram bem agressivas”. Policia não respondia profissionalmente sobre as mortes. Ainda houve indícios de que Jack Straw e George Howarth tentavam neutralizar a mídia local e de alguma forma influenciar a cobertura do Liverpool Echo ou do Daily Post, ou mesmo da Radio Merseyside e da Radio City. Em meio a isso, contraditoriamente, era discutida novas mudanças na organização dos eventos esportivos com base no ocorrido em Hillsborough.
Foi concluído que a maior tragédia do futebol britânico poderia ter sido evitada. Brian Mole foi transferido e Duckenfield assumiu Hillsborough sem nunca ter feito isso antes por lá. Houve negligencia após ver estrago da tomada de decisão quanto ao Portao C. Omissão. Em meio a exigências por transformações no futebol, em maio de 1997, os torcedores do Liverpool iniciaram ‘Justice for the 96’ (Justiça para os 96)
A expectativa era de um Merseyside Derby na final. O Liverpool como o time mais estável e vitorioso da Inglaterra e um dos maiores da Europa estava passando por uma longa suspensão após a Trajedia de Heysel. Jornalistas tranformavam a Tragédia de Heysel em filmes, reportagens e documentários de forma a disseminar falsas alegações.

Segundo o The Sun, os fãs pilharam os bolsos das vitimas. Mentira inicial de Duckenfield que direcionou outros sete jornais também. Hillsborough foi taxado como sinônimo de futebol como violência e hooliganismo.
Bert McGhee, ex-dono do Sheffield Wednesday contrariava criticas de Taylor quanto a segurança do estadio. Enquanto isso, o Liverpool Echo escrevia que centenas de pessoas entravam no estádio quando os portões eram abertos e foi exatamente o que aconteceu.
No inquerito, o alcoolismo era apontado também em crianças e em alto nível. Brian Clough, Bernard Ingham (secretário-chefe de imprensa de Thatcher) e Thatcher culparam os bebados.
Com grandes livros sobre violencia no esporte, Kevin Young apontou que o Desastre de Hillsborough estava entre os 13 grandes incidentes notaveis que aconteceram entre 1955 e 1989.
Negativos comentários sobre Hillsborough taxaram Merseyside como uma regiao violenta, militante e arrogante, A situação piorou em 1993 quando James Bulger (de 2 anos) foi morto por dois garotos de 10 anos. O The Guardian escreveu: “Heysel, Hillsborough e agora isso”. O Independent abordou como capacidade particular de colocar a tragédia de pé.
Em 2004, o The Sun tentou um pedido de desculpa na capa. Sem sucesso. Perdeu 40% dos leitores locais, 200mil leitores, £10milhões por ano. Na autobiografia de Dalglish, o ídolo falou sobre uma ligação de Kelvin MacKenzie onde ele dizia sobre como poder concertar tudo. King Kenny disse para que colocassem “nós mentimos” do mesmo tamanho de “a verdade”. Mas o escritor da matéria disse que não poderia fazer.
Em novembro 2006, MacKenzie disse que so fez o que tinha que fazer. E que não se desculpa porque havia uma onda de bêbados e foi o que causou o desastre. Em janeiro 2007, em uma partida contra o Arsenal valida pela FA Cup, a The Kop protestou contra. Doze mil pessoas formavam um mosaico com “The Truth” e cantando “Justiça para os 96.”
No dia 15 de abril de 2009, houve uma grande homenagem em Anfield. E até anos depois, as controvérsias nos inquéritos foram revistas. Pela sala de controle ouviram os gritos e nada fizeram. So produziram mentiras. “96 mortos e sentimos muito”. Quase 20 anos e famílias ainda destruídas. Nome a nome todos os 96 foram mais uma vez lembrados. Documentos, detalhes de cada morte mantida em confidencialidade tornaram-se de dominio publico. 23 anos após o caos, contaram 164 declarações policiais adulteradas. Os jornais tiveram diferentes capas agora.

