Raduan Nassar me faz saltar da ponte no escuro

Graças ao hábito que cumpro desde a adolescência, constato que acabei de ler Lavoura arcaica em 2 de agosto de 1996. Havia pouco, eu tinha chegado aos 26. Hoje, tenho 46. Nessas duas décadas, poucos artistas, raros escritores, me lançaram sem medo às águas turvas e velozes que vejo correrem espremidas pelas margens.
Raduan Nassar me faz saltar da ponte no escuro. Não há segurança de nada – o que não se torna obstáculo –, mas mesmo a morte, no final, é garantia de que algo deu certo. O mesmo acontece com Jessye Norman e sua voz. Ouço infinitamente e me lanço ao abismo das possibilidades como quem estivesse em busca de si. Ouvi-la cantando o final de Tristão e Isolda é recurso para me reconectar comigo mesmo, retomar o sentido perdido, lembrar do que me constitui.
Desde 1996, recorro a Lavoura arcaica quando o ar falta. É minha bíblia, meu livro sagrado a lembrar da centralidade da palavra no que entendo por vida. O vinho ou o uísque apenas umedecem as palavras, que digo baixinho para mim mesmo, pois a embriaguez se dá pelas próprias palavras. As páginas, escafandro tomado pelo vácuo, não me devolvem o ar, mas, mesmo assim, preciso delas, porque a vida transcende no trajeto até o ventre do abismo. E quando ouço a Morte de Isolda, o trágico e belo Liebestod, Jessye também me traga para as água revoltosas da noite, e me entrego porque reconheço em sua voz a presença do divino, do sublime, daquilo que me nutro.
Para vários alunos, falei do Raduan com um empenho militante, quase missionário, para que descobrissem as páginas do escritor de poucos livros. Pretendia que aqueles tocados pela minha exortação tivessem a possibilidade de também recusar a estabilidade da ponte e que se lançassem a voos em queda livre tão singulares como deve ser a leitura de cada um. Com a repercussão do discurso de Raduan na entrega do prêmio Camões (17/2), alguns alunos mandaram mensagens dizendo que foi nas minhas aulas que descobriram o autor. Com alegria melancólica, recebo esses testemunhos.
Na busca de ler sobre o que aconteceu na cerimônia, vejo que alguns tentaram desqualificar o discurso de Raduan. Acusaram que a manifestação destoa do personagem ermitão que ele criou para si. Taxaram a fala de ruim. Do que me concerne, fiquei eriçado com a manifestação de Raduan, o autor de livros seminais na minha experiência com a literatura, porque ele disse o que precisa ser dito em tempos graves, tempos tão estranhos, tempos difíceis, em que a cada dia um novo horror é despejado sobre nossas cabeças. Esses são tempos em que o ar vai rareando.
A revista piauí publicou em julho de 2012 um texto sobre Raduan. Contém um spoiler, que pode afetar a leitura de quem não enveredou ainda por Lavoura arcaica, mas, além da antecipação de ponto central da trágica narrativa, tem também muito sobre a história de Raduan, um escritor que faz da sua vida uma performance política, ao contrário do que sugere a fala de quem tenta desconstituir o discurso proferido na hora em que ele recebia o prêmio.
