Os fantasmas que a aurora trazia

Era uma vez, um pescador abraçado aos joelhos. Mirava o horizonte ao abrigo do chapéu de palha que escondia-lhe as rugas, ruminando incertezas juvenis. A seu lado, amarrada num suporte da canoa, a vara de bambu resistia aos tremeliques do náilon. Fazia frio. Os ventos que perturbavam as águas eram os mesmos que habitavam seus tímpanos. Tinha aversão a silêncios. Das histórias que ouvia desde os dezoito anos, sua favorita unia seu avô, o barco Simone e um cardume de peixes-espada numa mesma equação. Mas, assim como Simone, as fábulas se perderam no tempo. O barco desbotara. As cores, o letreiro e a robustez foram embora junto a lascas do casco. Agora, Simone sossegava a quilômetros dali, em alguma costa além do mar aberto. Fora engolida pelos fantasmas. Colecionando setenta e cinco outonos, o pescador passara a ter medo. Medo dos fantasmas que a aurora trazia.

Não era ingênuo. Sempre soube que um dia os encontraria vagando por aí, mas estava pouco disposto a avistá-los sem antes colher do oceano um último agrado. Revezava-se, à revelia da lua, entre a alma em preto e branco e a de caleidoscópio para fisgar um bom presente por baixo das ondas. Naquela madrugada, percebendo a ponta da vara envergar-se para baixo, desatou o nó para livrá-la, e com um puxão, retirou do mar um corpo escamoso que se debatia. Era um linguado. O pescador segurou cuidadosamente o peixe amarronzado de mais de meio metro, e parou alguns instantes para examiná-lo. Tinha os dois olhos num lado só. Instantes depois, retirou o anzol da boca do animal e o devolveu ao habitat, remando de volta à praia logo em seguida. Por fim, amarrou a canoa a uma estaca na parte rasa da água e começou a caminhar, deixando os pertences para trás. Percorria o trajeto mancando a passos curtos.

Vinte minutos depois, chegando à pequena casa de taipa, o pescador abriu a porta e viu o menino adormecido sobre a mesa — magro, cabelos cumpridos e os ossinhos marcados na pele. Podia ouvir sua respiração, cujo ar balançava um lápis para frente e para trás na superfície rústica. Ladeando o objeto, viu um prato com sobras de espinhas e um pedaço de papel desenhado a grafite. A luz tímida que irradiava pela janela permitia que ele identificasse a ilustração. Esboçava, entre borrões, a casa sob o ponto de vista daquela fenda, a única do recinto. Dentro do quadrado, o pescador e o menino posavam de mãos dadas a um homem e duas mulheres. O garoto havia desenhado o pescador ligeiramente corcunda, com o chapéu de palha repleto de peixes. Talvez merluzas. O idoso carregou o garoto nos braços até um colchonete e o acomodou, dando-lhe um beijo na testa.

Virou-se para a TV enferrujada de dez polegadas no criado mudo, com que ainda cultivava um laço afetivo, e pôs-se a pensar na última vez que assistira a um programa. Anos atrás, num lar de alvenaria, o telejornal da noite rodava uma matéria sobre um senhor — um tal Eduardo — que fazia filmes sobre pessoas. Ele dizia que elas contam as coisas, não só memórias, para dar sentido a suas vidas.

Atrás de si, o pescador ouviu grunhidos e o chacoalhado de um maxilar. Retirou a rede de pesca de uma das gavetas do criado mudo, e tornou ao colchonete para cobrir o menino. No espelho de uma das paredes, encarou o próprio reflexo. A face marcada pelo sol não camuflava: suas olheiras carregavam um peso que já não transbordava mais. Havia alcançado o lápis e o papel na mesa quando deitou-se ao lado da criança, no assoalho. No verso do desenho, antes de fechar os olhos, escreveu:

“Era uma vez, um homem. Ele tinha Simone, Eduardo, Tereza, André... E um linguado.

Geraldo, 01.01.2017”