Uma dose de espírito natalino

— O Natal está chegando, hohohoho!
 A correria já começou! Eu e todos os colaboradores estamos a todo vapor preparando os presentes para mais um fim de ano. Milhares e milhares deles lotam todos os cômodos de toda a nossa — agora claustrofóbica — casa. Tive que pedir mais ajudantes e tudo para esse ano (já que o número de crianças no mundo não para de crescer). Chegam um ou dois quase todos os dias; de todas as partes, crenças e raças. Todas as salas e corredores exibem o vai e vem característico da época. Hã?! Não lembro de ter dito para esse pessoal dos corredores usar uniformes brancos, mas… Tudo bem. Não tenho tempo para esses pormenores. Ao menos estão fazendo um bom trabalho. Tão logo me levanto, um dos meus colaboradores já me dá os remedinhos do dia. Venho os tomando desde que me entendo por Papai Noel. Talvez sejam eles que me proporcionam o espírito natalino. É, meus jovens… Vida de Papai Noel não é nada fácil; sobretudo nessa época. Uma palavra define: ansiedade. Só mesmo os remédios cuidadosamente escolhidos e as idas diárias ao pátio para tomar um pouco de Sol e brincar com as renas para conseguir aliviar um pouco a tensão, a pressão. Então todos os dias, por uma hora e meia, me desestresso olhando para o céu, para o… É, só para o céu, na verdade. Não fossem esses muros tão altos… Agradeço a companhia das minhas queridas Rodolfo, Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão e Relâmpago. Não sei o que seria de mim sem elas. Sei, sim: o Natal não seria o mesmo; não seria possível. Elas que me levam mundo afora e fazem da véspera de Natal a noite mais esperada do ano. Elas que levam esperança aos coraçõezinhos de cada criança. Elas que me fazem abstrair do peso da responsabilidade. São merecedoras de toda a minha consideração e carinho; especialmente por já terem sofrido tanto com a tal doença que as fez perder os característicos chifres. Condição raríssima, creio eu. Mexeu tão fortemente com seus corpos, seus sistemas, que seus berros pegariam desavisados de surpresa crendo serem latidos. E o regime aqui é tão avassalador que por vezes parece que estou preso, e sem direito a visitação! Ah, se não fosse pelo meu fiel escudeiro… Acho que não seguraria as pontas. Ficaria louco! Fosse pela sua estatura, facilmente seria confundido com os meus colaboradores habituais de orelhas pontudas. Mas não. Ele chegou para me ajudar esse ano, especificamente. Até onde sei, é francês. O meu está um pouco enferrujado, mas nada que uma dose de boa vontade e gestos não resolva. Ele tem um gênio forte; por essas e outras o deixei manter seu próprio uniforme, pois já estava acostumado. Inclusive seu chapéu inusitado. Gosto do seu ar sério; me faz rir. Como se estivéssemos lidando com um inimigo perigosíssimo. Embora pareça que não o leve a sério, sua abordagem estratégica em relação à melhor forma de vencer a guerra contra o tempo é o que o faz ser fundamental por aqui. Por vezes me pergunto de onde ele tirou tamanha experiência…
 Chega de papo furado pois amanhã é o grande dia! Todos para a cama!

Acordo. 
 Boca seca e uma leve dor de cabeça. 
 Ué, esqueceram de me dar os remédios hoje?
 Por que está tudo tão silencioso?
 Cadê todo mundo?
 Por que a porta está trancada?
 Alguém me tire daqui!
 Cadê ele?
 Cadê meu braço direito?

 — CADÊ VOCÊ, NAPOLEÃO?

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