As cidades, as 3 rendas adiantadas e o fiador

Uma massiva migração rumo às grandes cidades está a deixar ao rubro o mercado imobiliário. Compra-se para renovar, vende-se para alugar e aluga-se para subalugar.

Wikitude (Lisboa)

Sem muitas hipóteses fui também apanhado no meio deste mundo efervescente do Real Estate na cidade de Lisboa. Uma das cidades da moda na Europa, supostamente por causa da sua oferta cultural, das oportunidades de negócio, da vivacidade dos serviços e instituições, da inovação e criatividade, enfim, do sol, do tempo ameno, tudo tem contribuido para que a “Capital do Atlântico” seja cada vez mais atrativa.

Infelizmente Lisboa está com o mesmo cancro de outras cidades. Uma espécie de oportunismo de proprietários e mediadores imobiliários que simbioticamente se organizam em rede para que o risco seja quase inexistente.

Há dois dias, estava numa “lista de espera” à porta de um modesto apartamento, renovado, é certo, mas não mobilado, para arrendar pela “módica quantia” de 525 euros mensais. Mesmo ao lado umas águas furtadas por 600 euros estavam também a receber visitas. E, quem estiver nesta situação sabe bem do que falo, há uma grande procura e, portanto, é normal que o mercado se aproveite e encontre a forma mais lucrativa para os seus agentes.

Muitos destes apartamentos só estão um dia ou dois nos anúncios online, no máximo algumas semanas em carteira das imobiliárias, naturalmente dependo das zonas, do estado e claro do preço e condições para o arrendamento.

Nas conversas com os outros interessados, percebi, entretanto, que o estado de espírito de quem tenta viver com algum conforto em Lisboa, para trabalhar ou estudar, que não seja numa “Républica” estudantil de Erasmus cheios de energia e dias sem noites, é um drama. Uma das senhoras com quem troquei algumas impressões, estava a ganhar uns 750 € de ordenado e procurava um apartamento e desde logo, apareceu no mesmo em que eu estava, mas o semblante era de quem estava ali a perder tempo: “Já sei que pedem 3 rendas (duas adiantas e uma de caução) e um fiador”, explicou. “E alguns que já vi pedem fiador com vínculo à Função Pública!, acrescentou. “Assim é complicado”, desabafou obviamente desapontada.

Entretanto surge também para visitar o mesmo apartamento mais uma pessoa, uma jovem acompanhada da mãe que procura também um local que não necessite de dividir com estranhos: “que a casa de banho não esteja sempre a provocar-me dúvidas”, disse de forma descontraída e com um sorriso. Sim, o ambiente é mesmo de comédia. Em poucos segundos, não faltam histórias que se atropelam umas com as outras tal a ânsia de partilhar a “vida na urb” e as aventuras na procura da solidez e de uma vida desafogada. “Tem de ser a minha mãe a pagar”, adiantou a jovem. “Neste momento estou com um contrato a tempo certo e as prespetivas não são muito boas”, acrescentou. “O que me safa é a minha mãe que tem uma boa reforma e que tem condições de me ajudar”, concluiu.

Esta cidadã tem essa sorte, mas há logo imediatamente alguém que lhe recorda a quantidade de pessoas que não têm a mesma condição. (E efetivamente sou obrigado a concordar, já que me enquadro numa dessas situações).

Quando finalmente chega o mediador, já estavamos praticamente todos familiarizados com o drama dos arrendamentos “inteligentes” em Lisboa. Refiro que não é um caso que diga apenas respeito à capital portuguesa. Em todo o mundo, o problema da habitação está a condicionar bastante a sustentabilidade nas cidades que, por seu turno, pouco ou nada podem fazer fruto das leis em vigor e da pouca flxibilidade para ações concretas neste setor. Mas também recordo que há algumas soluções simples e que poderiam servir, por exemplo, para desenvolver as cidades mais pequenas do interior que, com a atitude certa, garantido habitação de qualidade e concorrencial a esta ”loucura” coletiva das grandes cidades, criaria condições estimulantes na captação de talento, cidadãos criativos e inovadores, empreendedores, enfim, imensa gente que tenta sobreviver nas grandes metrópoles mas que a falta de teto ou a ausência do conforto necessário, tolhe em permanencia uma felicidade absoluta e uma experiência de vida satisfatória.

As pequenas cidades podem e devem olhar para o problema da habitação como um fator de atração de novos cidadãos residentes, competindo nesta área do imobiliário, garantindo que as intervenções nos centros históricos, por exemplo, não sejam depois vampirizadas por especuladores sem escrúpulos.

As próprias autarquias ou algum organismo associado poderiam ser, por exemplo, elas próprias, as “fiadoras” para jovens em início de carreira, casais e até profissionais e empreendedores séniores. O que têm a ganhar será muito mais do que o investimento necessário. E a campanha para comunicar é simples: “Mude-se hoje, paga uma renda, acreditamos em si, não exigimos fiador”.

Quanto a mim, posso até desistir em breve de viver em Lisboa como de resto afirmaram outras das minhas novas amizades com quem partilhei estas experiências. Mas pode ser que Lisboa precise de nós também como fiadores e garantia de que é mesmo uma Cidade Inteligente. Mas fica difícil se para arrendar uma habitação os cidadãos têm de se descabelar e desunhar, pedir crédito bancário (para pagar as 3 rendas), envolver terceiros e no final não usufruir de nada porque não sobra nada para gastar.

Há imensas histórias destas em todas as cidades. Partilhe a sua em: www.facebook.com/smartcitieson

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