Gravidade

Chegar ali fora um esforço. Não como um objetivo premeditado, mais uma recompensa após a errância por locais desconhecidos. Seria um tropeço se não fossem aquelas encostas que subiam e desciam. Tropeço. Realmente. Tropecei naquela figura monolítica. Mesmo lá de cima do morro não a havia visto. Estranho. Estava no chão. Não pelo tropeço, isso é uma figura de linguagem. Na verdade estava cansado pra burro. Acho que tenho que parar de fumar. Sempre prometo a mim mesmo. Mas é só nesses momentos de precisão que lembro o quanto é realmente necessário. Encostei a cabeça na parede branca e lisa. Minhas pernas esticadas cobriam toda a extensão da calçada, mas enfim, não havia viva alma passando pelo local. Nem mesmo um mendigo deitado para me pedir algumas moedas que eu fingiria não ter. Talvez o mendigo fosse eu. Não pelo estado que estava, até que bem vestido, mas pelo contraste entre minha figura e a brancura das paredes. Acho que dormi. Não sei. Não me lembrava de a noite ter caído. Vai ver tinha alguma coisa a ver com a gravidade do local, encravado num fundo de vale, puxando caminhantes desavisados e o brilho das estrelas num estampido seco. A estrutura ronronava baixinho. Encostei meu ouvido com mais cuidado para tentar ouvir o som que vinha do interior. Este, para minha surpresa, não era metálico, mas um conjunto de pequenos sons que, por acumulo, faziam a parede vibrar. Havia algo de familiar naquilo. Digo: não costumo ficar ouvindo sons de paredes alheias para dizer que aquilo era típico. Não. Quero dizer que eram formados por vocábulos. Padrões reconhecíveis. Não havia fonemas, uma linguagem baseada apenas em vogais. Vinham lá do meio da parede, prolongadas, uníssonas, quase um mantra. Religioso, talvez. Aquilo atiçou minha curiosidade. Haveria pessoas atrás daquele muro? Com muito esforço saltei aquela parede de maneira estapafúrdia. Saltei na verdade é um nome bonito para o que eu fiz — muito mais insistência do que habilidade. Desabei do outro lado e o que vi foram aqueles poucos metros convertidos em dezenas de metros de níveis que, de tanto em tanto, desciam para o centro de uma estrutura oval titânica. Vazio. Silêncio. Passei de patamar em patamar com cuidado. Nada ali explicava o som que ouvirá do lado de fora. Cada um desses níveis continha uma grossa camada de poeira. Pareciam estar ali a muito mais tempo do que a idade que aquele edifício encrustado no vale parecia ter. Cheguei após alguns minutos ao centro, um grande plano da grama mais verde que poderia existir. Não saberia descrever aquela cor no momento e muito menos agora. O verde primordial. Olhei em volta, para aquele círculo de patamares, tão antigo quanto qualquer monumento mesopotâmico. De minha nova perspectiva percebi que os patamares, muito grandes para meu corpo humano, eram na verdade escadas. Escadas de deuses. Deuses que jogavam com a vida de homens naquele espaço sagrado. Acometido pela descoberta gritei, com um misto de desespero e euforia, mas som nenhum saiu. Hoje, com certa distância, concluo que a gravidade daquele espaço era tamanha que meu grito se juntou àqueles outros gritos do passado, compondo aquela canção celestial gravada em pedra. Quem sabe, daqui muitos anos, outro passante desavisado ouça-o, um som solitário após vencer o peso do vale, ao se deitar de forma descuidada nas paredes daquele monumento de vida e morte.