Nada a Temer! Tudo a temer!

Relatos de um náufrago nos mares e marés dos humores políticos

Revisitamos a Ilha do Maracujá diversas vezes, em nossa memória, depois da primeira expedição. Difícil era chegar a um consenso sobre as dimensões daquela pequena ilhota e de sua selvagem população de pedras canibais. Até hoje não sabemos ao certo a que altura ficaremos ao habitarmos nossa ilha derivada. Tampouco sabemos quantos golpes serão necessários para vencermos as rochas e domá-las com fogo.

O fato é, cá estamos ilhados no continente. Devido aos fortes ventos e as bravas ondas somos impedidos de realizarmos nossa segunda expedição.

Quando o mar ainda era calmo, no fim do verão, nossas preocupações eram outras. Em meio às polarizações das manifestações políticas, imaginávamos voltar da ilha em meio ao caos. Chegamos a cogitar que sem sinal, sem notícias e sem sustos e surpresas, desatualizados a cada minuto que passava e com medo do que poderia sorrateiramente acontecer, talvez fosse melhor nem voltarmos. Fundaríamos lá mesmo nossa nação outra! Separados do mundo, para nossa surpresa, havia sinal e voltamos. De lá para cá, podemos dizer que as coisas do lado de cá se agravaram.

Era quarta feira, dia onze de maio, semana passada. Enquanto amarrávamos pela quinta vez as cordas que fazem a vez de piso dessa intervenção fundacional, o décimo quinto senador fazia sua fala na votação. Entre um nó e outro seguíamos pelo twitter a história se repetir como farsa, num 3G muito mais precário do que aquele que encontramos na Ilha do Maracujá. Alienados de tudo, nos orientávamos por aquele único canal de comunicação estabelecido com o continente dos grandes fatos. Conforme seguíamos essas constelações nos perdíamos mais e mais nos mares e marés dos humores políticos.

Poderíamos aqui falar de como essa estrutura triangular, constituída pela tensão de sua trama de cabos, flutuará sobre as rochas inclementes da ilha, tocando levemente três pontos de angulação incerta.

É o que se espera.

Mas num momento de total diluição das estruturas, é mais fácil fazer o artificial pairar em pleno ar do que buscar algum ponto de apoio na terra firme.

É passível e necessário fazer inúmeras críticas ao governo afastado, mas é impossível ignorar as tenebrosas sombras que se assomam no horizonte. Cercados por águas revoltas somos golpeados pela tempestade e não sabemos sequer aonde nos agarrar.

Se por um lado pouco nos incomodam as críticas de que esse trabalho não resolve as questões elementares dos problemas metropolitanos, não podemos negar a insuficiência desta intervenção frente à concretude dos fatos. Com o último nó atado, voltamos as nossas casas no momento que o quinquagésimo quinto senador espumava.

Enquanto dormíamos com Dilma e acordávamos com Temer a Ilha permaneceu impassível.

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