Uma carta de amor ao público

Enquanto escrevo esse texto, vou despregando do teclado os grãos de purpurina magenta que restaram de sexta-feira. Eles grudam na ponta dos meus dedos e voltam a se soltar em outras teclas. A purpurina tem essa propriedade mágica de aderir às coisas e passar a fazer parte delas, assim como as coisas passam a ser purpurina.

Vou lançar mão aqui de uma leitura hiperbólica da festa, então leiam até o final, tirem os excessos que eu não consegui retirar e vejam se ainda faz algum sentido para vocês, ok?

Tem sido cômodo nos últimos tempos ser pessimista, “eu li as notícias hoje, oh boy”. Concordo: o mundo é uma merda. Longe daquela evolução bonita aonde caminhamos de mãos dadas rumo a um destino manifesto, a história é feita de idas e vindas, onde nada nunca está dado. Os conflitos sempre fizeram parte do mundo e eles não vão deixar de existir. Pegos nessa ressaca, nadando contra a maré política que nos assola, difícil ter onde nos segurarmos. Tornamo-nos mais pragmáticos, contamos as moedinhas e nos agarramos com todas as forças as nossas bandeiras. É o que o momento pede? Talvez.

Talvez ainda haja outra possibilidade. Sempre me emocionei com as pessoas que dançam em metrôs. Você está lá, numa estação lotada; as pessoas embrutecidas — com razão — por serem tratadas como coisas. Aí alguém resolve que vai dançar no pouco espaço que resta do vagão. Ninguém precisa dançar no trem, ora pois! Essas máquinas foram feitas para levar gente de lá para cá. Mas ela dança. E a dança é um ataque tão grande ao funcionalismo da máquina, porque justamente ela se utiliza do recurso mais exíguo que é o espaço. Afinal, quem dança no metrô não se contenta em mexer as mãos com os indicadores em riste e ficar no seu lugar. Não! Ela precisa ocupar todos os mínimos vazios que existem entre as pessoas e atravessar o trem de ponta a ponta se possível. À medida que ela se expõe, expõe também o absurdo que é a situação que nos submetemos todos os dias, as possibilidades perdidas no cotidiano, a dimensão poética da vida que nos é negada. Assim como ela surge, ela desce em alguma estação. Nada está resolvido: o vagão continua lotado, assim como continuam as contas para pagar e o cafezinho para beber. Mas algo muda dentro da gente.

Tem coisas que a gente escreve, outras a gente desenha, algumas a gente fala e tudo isso é necessário. Mas como todas as linguagens, elas têm limitações. Nessas horas tem coisas que só o corpo para entender. E se é o corpo que media nossa relação com a realidade, é ele também que sofre os abusos de um sistema opressor. Os ataques ao corpo são tão violentos por que nossos corpos são os últimos redutos da felicidade. Não é a toa que festas e felicidade muitas vezes são tratadas como coisas supérfluas. Festas são estes espaços aonde o tempo poético se descola do tempo do trabalho, aonde mergulhasse num território autônomo e temporário, aonde há um mínimo de regras que suscitam uma construção coletiva. As boas festas nos lembram da felicidade que é viver em sociedade, exemplos que não chegam pelo cérebro racional, mas pelos poros da pele.

Mas se o sistema é podre, há espaço para felicidade? Ao admitirmos que o mundo seja duro apresentam-se duas possibilidades: ou fingimos que vivemos em um campo de flores e abraçamos uma felicidade poliânica, ou caímos num niilismo imobilizante. Mas como todo dualismo, este é falso. A felicidade não é uma condição, mas uma escolha. Escolhe-se ser feliz apesar de saber que nem sempre haverá motivo para tal. Como a purpurina que impregna nossos corpos, a felicidade transforma.

Fui formalista aqui na comparação entre a felicidade e a purpurina, peço para que me perdoem.

Apesar da tentativa de racionalizar o acontecido, não se enganem. Tudo aqui escrito, não passa de um enquadramento narrativo proposto. Em última instância a festa foi só uma festa. E essa é a beleza da farsa.

Abraços carinhosos à todxs,

Vitor Hugo Pissaia

mágico, dj e pai da animação

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