fantasma sem rosto

Detive por alguns instantes o ímpeto de seguir rumo àquela luzinha distante no fim do corredor. Não cabe aqui explicar como cheguei ali, nem por qual motivo, mas é surpreendente notar como esses questionamentos tomavam conta de mim enquanto decidia, logo depois de me erguer de uma queda misteriosa, entre ficar parado ou continuar caminhando.
Notei que adiante um grupo considerável de pessoas também lutava contra as lacunas memoriais. Antes não havia nada; tudo era daquele instante em diante, e no entanto essa certeza parecia não bastar. Ao passo que, vencidos os segundos iniciais de minha frustração, percebi que as pessoas mais distantes, aquelas mais próximas à luz, não caminhavam e sim corriam, talvez com alguma dificuldade, de um modo que eu podia julgar ser de competição.
Percebi também, após constatar que fazia parte de alguma espécie de corrida ou luta por sobrevivência, que ao meu redor - já explicitando aqui que não havia ninguém aquém do meu grupo - ninguém parecia ter reparado no mesmo que eu. Era de certa forma uma vantagem, pensei àquela altura, embora nada daquilo fizesse muito sentido. Demorei a notar, também, que nenhumas daquelas pessoas tinha rosto; nem podia julgar também se eram homens ou mulheres; apenas com certeza moderada sabia que eram seres humanos.
Nesse instante parti, o primeiro passo muito custoso, em desequilíbrio, e foi menos pela vontade de chegar ao destino final daquela desventura confusa que tinha me metido e mais para sair daquele canto de pessoas cegas, sem face, que apesar de não terem olhos me encaravam como fantasmas obstinados em roubar minha alma.
Esqueci logo quão difícil era caminhar, já que, metros depois, estava só, sem os fantasmas do início. Depois, porém, percebi que parecia andar muito sem nunca sair do lugar. Os espectros sem rosto já estavam longe há muito tempo e as pessoas ágeis, a quem eu deveria imitar quando ganhasse forças, ainda pareciam muito distantes; mas não era como se estivessem mais próximas da luz. Não, isso, não. Era como se realmente corressem numa esteira infinita; infinita e escura.
Senti, como que por instinto, a necessidade de checar o suor do rosto; foi só então que percebi que, apesar de sentir cada órgão da face, que apesar de poder ver, respirar, ouvir e até gritar diante daquele purgatório em vias de pegar fogo, nenhuma parte minha estava ali. Eu era como aqueles fantasmas; um mais inteligente, mais capaz, mais cheio de mim no tudo, porém tão inútil e tenebroso quanto eles; talvez naquele instante eu também fosse um assombro terrível a qualquer alma que ali pousasse, como eu, sem passado e sem perspectiva de futuro.
Decidi, e ali já era tomado por ações de impulso, que minha personalidade era inexistente. Estava ali, sob critérios inteiramente desconhecidos, à sombra do arquétipo de um ser que já havia existido num plano menos macabro; plano esse, claro, que eu não conhecia, só especulava. Era preciso, portanto, atinar para algo; se eu não pudesse compreender, em tese de boas garantias, o que era, dificilmente poderia juntar-me aos seres em pleno desenvolvimento lá adiante; ficaria ali para sempre, naquele meio tempo, entre a consciência de não ser nada e a possibilidade de ser qualquer coisa.
Caminhei então por muitos tempos, sem nunca sair do lugar, até que me dei conta de estar num estado de inércia em relação ao corredor; aquele pedaço de mundo não respondia às ações dos corpos que nele estavam acorrentados. Não podia, sob nenhuma medida, concluir há quanto tempo caminhava, onde apontava meu caminhar, nem mesmo considerava estar inscrito nalgum tempo que justificasse minhas ações. Foi sob essa consciência que finalmente percebi a medida tangível de minha estada naquele canto, da densidade daquelas paredes sem textura e daquele chão que se sentia oco e frágil. Sob a luz de todo esse entendimento, compreendi logo há quantos infinitos anos caminhava sob aquela faixa lúgubre e sem sentido.
Respirei tão profundamente no instante seguinte à minha descoberta que pude notar nascer em mim tons de personalidade; marcas que me separavam do estado espectral dos sem-rosto e que me conduziam rumo à luz no fim do túnel; e subitamente apareceram na minha face os órgãos que me constituiam, se não como um ser humano, como um ser provido das características necessárias para ascender àquele objetivo: a luz.
Agora então o tempo era mais acelerado, e tão rápido ia acelerando também minha velocidade nesse processo. E agora que o tempo se sentia, e respondia às minha ações, erguia-se fragorosamente a luz profunda no fim do corredor. Era quase possível tocá-la. Seria capaz de assumir naquele instante que qualquer vida notavelmente digna guiaria-se rumo àquela esperança magnânima.
Corri, então, como se as doses daquele novo estado, de agir e sentir as respostas da ação, fossem energia capaz de dar compreensão a todos que me vissem a distância: forte, humano, convencido do mundo. E queria portanto demonstrar cada vez mais esse vigor repentino, correndo mais que os outros, ultrapassando os que eram mais lentos e frágeis. Corri tanto, e tão rápido - e quanto mais rápido corria mais acelerava o tempo -, que em breve seria inundado pela estrela mãe que tanto supus ser intocável no instante em que tomei sentido de existência.
Quando de repente minhas ações não eram mais necessárias, quando à minha volta o mundo já era mais luz e quase nenhuma treva, ousei olhar para trás, ação que vinha em todo aquele tempo evitando, e pude ver que há infinitos tempos de distância uns seres sem luz e sem rosto ajoelhavam-se frente à escuridão; e vi também que adiante a esses fantasmas uns seres em inércia cambaleavam rumo ao desconhecido. Tudo se compreendia, em cada tempo e fase, até que perdi, como que por explosão, qualquer consciência acumulada naquele labirinto de sentido único.
Meu corpo ergueu-se numa atmosfera de êxtase, incontrolável, e depois sacudiu-se para direções antes nunca experimentadas. Toda essa atmosfera densa e despossuída de gravidade sucumbiu também, instantes depois, quando fui jogado para o nada - agora, pelo contrário, cheio de gravidade. O instante seguinte, no entanto, é um apagão sem sentido, dotado de uma ansiedade profunda; uma queda rumo à incredulidade, num tempo cada vez mais rápido e sem voltas. Aqui, agora, há menos respostas do que quando diante dos fantasmas sem rosto.
