
Na capital turca o melhor amigo do homem é o gato. Os reis dos GIFs são “a alma de Istambul”. Sem eles, a cidade seria outra. A delicada relação entre os bichanos e os moradores da cidade é explorada neste documentário distribuído pelo YouTube Red, a opção paga da plataforma de vídeos.
Não espere um filme sobre a vida animal à la NatGeo ou Discovery Channel. Mais do que abordar o dia-a-dia dos bichanos, o ponto focal é a relação do homem com os animais. Ao invés de cientistas estudiosos do comportamento animal, pessoas ordinárias contam suas histórias. É mais antropológico do que científico/biológico.
Muito embora cada aspecto do comportamento animal seja ilustrado pela história de um morador: os hábitos de caça, as disputas por território, os cuidados parentais, as brincadeiras entre os filhotes. São donos de lojas, pescadores, chefs de restaurantes, aposentados, enfim, pessoas comuns.

A lente de Charlie Wuppermann segue os peludos em diversas situações, algumas tomadas como câmera subjetiva, fazendo as vezes de olho-caçador.
Se no Egito Antigo os gatos eram deuses, aqui também tem seus toques de divindade. Um dos personagens conta que após um acidente de barco cruzou com um dos felinos moribundos. Após a insistência do gato, que miava e apontava a pata para uma carteira no chão, o homem abriu a bolsa e lá estavam 120 libras. Interpretou como um típico “ato divino”.
Outro homem, que gosta muito de gatos, recebe um pequeno filhote recentemente acidentado. Ele o pega no colo, tenta ouvir as batidas do coração, mas o caso parece grave. O gatinho corre sério risco. É o gancho para ouvirmos a história de uma mulher cuja gata morreu de câncer de mama. Conhecemos a finada por meio de um álbum de fotos. A relação parece ter sido tão profunda que não exita em afirmar: “quando eu morrer, quero encontrar com ela, não com a minha avó”.
O impacto ambiental da especulação imobiliária e da construção de novas vias urbanas atinge diretamente os bichanos, afinal são cada vez menos partes verdes disponíveis. “Quando os prédios vieram, a natureza desapareceu. (…) Se esta área for demolida, eles não terão ninguém”, diz um morador.
Achei que tem um excesso de imagens aéreas e em slowmotion que não se justificam. São takes recorrentes na passagem entre um caso e outro. Embora o recorte narrativo soe interessante, parece não ter havido um esforço de linguagem. “Kedi”, no final das contas, é um improvável e feliz retrato de uma cidade e se contenta com a boa pesquisa de imagens e personagens.
