Inocência das Memórias

Innocence of Memories. Documentário. Reino Unido, 2015.

Vitor Souza Lima
Jul 28, 2017 · 3 min read

O escritor Orham Pamuk, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2006, visitando os museus pelo mundo, sempre achou que os mais modestos seriam ideias para a criação de um romance. Assim nasceu o “Museu da Inocência”. O livro conta a história de um personagem que se apaixona perdidamente. Mesmo casado, não esquece o amor de outrora.

A paixão se torna obsessão e ele passa a colecionar todo e qualquer objeto que fora tocado pela tal mulher. Juntou tanta coisa que, ao final de tudo, criou um museu. O “Museu da Inocência” realmente existe em Istambul. Pamuk queria que os leitores tivessem essa experiência do próprio lugar relatado na ficção. Uma das imagens mais icônicas é uma coleção de guimbas de cigarro.

No filme há o acréscimo de uma terceira camada de realidade, elevando o jogo à terceira potência. Ayla, uma das personagens do livro, é também uma das personagens do filme e relata em primeira pessoa os principais acontecimentos, como testemunha que foi da vida de Kemal, o protagonista.

A câmera, como um flanêur, percorre as ruas noturnas da cidade. A noite é, afinal território dos sonhos, das memórias que ganham vida. As vias estão quase sempre vazias, como se a própria cidade não passasse de um objeto a mais do Museu. As figuras humanas são esparsas, silhuetadas pela atmosfera noir. Como se fossem fotografias tiradas em tempo expandido. Apenas alguns cães alados habitam aquelas calçadas.

Acompanhamos o filme como se estivéssemos lendo a própria obra do escritor, cuja voz narra trechos do livro (ou caminhamos pelas ruas como se virássemos páginas e vice versa). A própria imagem do livro, como objeto, costura a narrativa, iluminado por uma projeção onírica.

Uma entrevista do autor aparece vez ou outra em TVs, sintonizadas para ninguém: em uma vitrine de loja, em uma cabine de rua, na sala vazia de uma casa. O real habita a ficção da mesma forma que a ficção se torna presente na realidade. “O quanto de memória e ficção havia no livro? Tudo realmente aconteceu? O que foi inventado?”, se pergunta Ayla.

No decorrer da andança aparecem outros personagens da história: um taxista, um fotógrafo, um operário da barca, uma atriz, um catador de sucata. Todos discorrem sobre sua relação com a noite em Istambul.

“Inocência das Memórias”, dirigido por Grant Gee, é um intrigante documentário sobre uma ficção. E, portanto, se vale de elementos de ambos os gêneros para criar um palimpsesto de memórias — reais ou não.

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