Notas sobre a cegueira

Notes on Blindness. Documentário. Reino Unido, França, 2016.

Vitor Souza Lima
Jul 28, 2017 · 3 min read

Antigamente, antes de existir a captação de som direto no cinema, as cenas eram filmadas e a voz era acrescentada na pós-produção. Os filmes eram dublados pelos próprios atores. A premissa deste documentário inverte o jogo. A partir de gravações sonoras é que o filme foi concebido. As falas dos atores foram todas feitas em lip sync. As vozes originais são de John Hill e sua mulher, em sua maioria. Ele relata a experiência real de tornar-se cego, devido uma doença degenerativa que o cometeu desde muito novo.

Nesse sentido, é muito interessante que enquanto a banda sonora do filme é documental, as imagens são todas ficção. Todas as vozes são preexistentes à realização do documentário. Cada cena foi construída de maneira tão delicada quanto à voz do personagem. Alguns takes transpiram poesia. Os recursos visuais utilizados pelos diretores (Peter Middleton e James Spinney) estão em harmonia à condição de Hill. A fotografia, ora míope, ora hipermétrope, encadeia sombras e luzes.

Entre a janela de vidro e a cortina translúcida passeia seu filho, passando a mão pelo tecido, não deixando que ela se abra. Só vemos a sua sombra; A sombra de uma árvore dança sobre a parede de madeira; Os raios coloridos formados por um pendente de cristal toma conta da tela; O alto de uma cúpula nos lembra um olho. Essas são algumas das referências poético-visuais ao ver-não ver.

Mesmo sem enxergar, ele continuava usando óculos e um relógio no braço esquerdo. Ao ser defrontado com essa questão, ele mesmo não sabe explicar o porquê.

O poder da audição é explorado em cenas como a que John observa a chuva. Os sons dos pingos caindo e batendo nas coisas cria uma espacialidade sonora até então desconhecida. Lamenta não haver chuva no interior da casa. Assim, reconheceria melhor a localização de cada objeto. Ou então quando ele vai deixar um dos filhos na escola. Após se despedirem, ambos vão dizendo “tchau” um ao outro até que a fala de um deles desapareça pela distância.

A memória, até então visual, também vai se perdendo. Já não sabe mais o que é/foi realidade e o que é nostalgia. Ao visitar sua casa antiga em Melbourne, John não se lembra mais dela. “Você estava desaparecendo em um mundo em que eu não podia seguir”, diz a sua esposa. “Devo arranhar meus olhos e me juntar a esse mundo?”.

O lirismo e a poesia do documentário ocultam qualquer angústia que o tema possa suscitar. Para ver e ouvir.

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