
Sobre “Como o Tempo Passou Voando” (ou “a inesperada saudade do Disk MTV”)
Não foram poucas as vezes que me senti velho ao passear pelas listas de artistas nas paradas de sucesso mundo afora. Do alto de meus 27, confesso: não estou preparado pra admitir que Justin Bieber, aquele moleque mala com cabelo pro lado, é a voz por trás de algumas das melhores músicas pop dos últimos tempos.
Drake, The Weekend, Biel, Zayn, a dupla sertaneja do momento… São tantos nomes estranhos em meu raso conhecimento sobre a música atual que me sentiria mais fluente num bate-papo sobre física quântica avançada do que sobre o novo disco da Rihanna. Mas pra que serve o Spotify, afinal, senão pra ajudar os desavisados, como eu, a se inteirarem sobre os sons que andam fazendo a cabeça da rapaziada, certo?
Retomando o fio da meada, penso que a cultura pop é um reflexo do contexto, e que o tempo anda passando rápido demais. Não era mês passado que Numb, do Link Park, tocava em tudo quanto é rádio? Bom, isso me leva a pensar no Disk MTV… Que baita programa! Se quisesse saber o que tinha de mais quente na música, era só ficar de olho no canal 22 e ver a mágica acontecendo.
E lá estávamos nós, com nosso caderninho, anotando “nome”, “artista” e “álbum” daquilo que mais agradava pra baixar depois da meia-noite na internet discada. Bons tempos aqueles… Ou talvez nem tão bons assim! Pensemos um pouco a respeito:
Reflexões embebidas em nostalgia geralmente entregam sobre o passado um viés positivo, otimista, cheio de paisagens lisérgicas e unicórnios saltitantes. O que acaba terminando num suspiro acompanhado do mantra do parágrafo anterior que evoca “aquele tempo bom que não volta mais”.
A gente pode até achar a volatilidade da música de hoje em dia uma merda (como se one-hit wonder fosse um termo muito novo), mas vai dizer que você gostava de ter que esperar o fim de semana pra ouvir aquele barulhinho irritante do modem conectando pra, enfim, poder ouvir de novo aquele som que passou no Disk?

Eu também fico puto quando vou a um show e percebo que boa parte da plateia tá mais preocupada em tirar selfie e filmar no smartphone do que se deixar levar por aquele solo de guitarra improvisado que nunca mais vai acontecer de novo… Mas também não era bacana chegar em casa e ver que o filme da câmera queimou e que todas as fotos daquela viagem bacana tinham ido pro espaço, né?

Da mesma forma que entre o preto e o branco há um ilimitado mar de tons de cinza, penso que cada tempo tem a dor e a beleza de ser como é. E que é natural que a gente sinta algum desconforto em ver as coisas passando e mudando tão depressa, o que leva ao estágio da negação.
E assim acabo lembrando que malandro mesmo era Vinicius:
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
— Meu tempo é quando.
Esse texto nasceu de um outro texto publicado no Blog Chico Rei. Se você também é dessa geração que era muito nova pra comemorar o Tetra em 94, mas nem tanto pra chorar a derrota de 98, preparei uma playlist com alguns clássicos do Disk. É pra ouvir lembrando daquele tempo da câmera Cybershot, do orkut, do gol do Ronaldinho contra a Inglaterra, do Nokia 3320, da Vagabanda e de mais um tanto de coisa boa (e daquelas outras tantas que, bem, é melhor deixar por lá mesmo).