Teorias da Conspiração e seus encantos

Esta é minha estreia no Medium. Depois de meses como um ávido consumidor dos artigos aqui, resolvi também contribuir e compartilhar alguns pensamentos e ideias sobre uma das minhas grandes paixões, que é a de escrever. Recentemente, lancei meu 2o livro, chamado A Conspiração Alquimista, e, como o próprio nome diz, é sobre teorias da conspiração. Então, nada melhor que começar minha jornada no Medium escrevendo sobre elas e porque, desde que o mundo é mundo, tais teorias permeiam as ideias dos seres humanos e ajudam a acalorar um pouco mais as conversas de bar.

Primeiro, não me considero um maluco por teorias da conspiração, desses que acredita em tudo e em todas. Mas, gosto de dar o benefício da dúvida para várias possibilidades que aparecem em relação a uma história. O “e se” para mim é quase que um instinto de sobrevivência num mundo pautado por fake news, em que parecer verdadeiro é mais importante do que ser verdadeiro. Assim, ler sobre teorias da conspiração é quase que um hobby que alimento constantemente e que serve de combustível para muitas ideias surgirem na minha cabeça.

Um prato cheio para alguém que gosta de escrever.

Muitos acadêmicos já investigaram a fundo a tara que temos por teorias da conspiração. Não vou repeti-las aqui, mas convido os interessados a mergulharem na internet à caça de algumas delas, das mais realistas às mais complexas. Vou escrever três principais razões que me fazem gostar dessas teorias e que me fizeram escolher esse divertido tema para ilustrar meu 2o filho literário.

Tudo precisa ser explicado

Odiamos incertezas. Por mais que elementos como rotina e processos sejam demonizados por muitos, o ser humano tem uma necessidade de buscar explicações em tudo. E, de preferência, que estas explicações sigam padrões já conhecidos, como, por exemplo, uma pessoa que pega uma gripe porque tomou chuva, ou alguém que bate o carro porque estava em alta velocidade. Se algo não obedece um padrão pré-estabelecido, ficamos extremamente desconfortáveis, desconfiados e procuramos algo racional, que possa fazer algum sentido.

Perceba que este motivo traz uma pressão grande para teóricos da conspiração: a história precisa fazer sentido. Como sentido é algo subjetivo, o espaço para a criatividade é muito grande, mas são as teorias mais reais que ganham mais projeção e alcance.

As primeiras páginas do meu livro são sobre uma entrevista concedida por Donald Rumsfeld, ex-secretário do Tesouro americano, no dia 10 de setembro de 2001. Naquela entrevista, que está disponível no YouTube (vídeo logo abaixo), ele fala sobre um sumiço de US$ 2.3 trilhões dos cofres americanos. Sim, um sumiço. Todos ficaram chocados e a imprensa fez uma cobertura grande pela noite sobre aquele absurdo. Mas, no dia seguinte, houve o ataque terrorista aos Estados Unidos, o mundo mudou e esqueceu aquela história.

Vídeo que mostra o discurso de Donald Rumsfeld em 10 de setembro de 2001

Seria muita coincidência que um fato daquela magnitude acontecesse menos de 24h depois da entrevista de Donald Rumsfeld? Para o ser humano que precisa de lógica, coincidências são difíceis de serem engolidas. Este caso somado às dezenas de outras histórias mal contadas sobre aquele fatídico dia, como a queda vertical e ordenada das Torres Gêmeas, no mesmo movimento de um prédio implodido, ou mesmo a invasão ao Iraque algum tempo depois sob a alegação de um arsenal nuclear que nunca fora descoberto, fazem com que teorias da conspiração surjam aos montes.

Portanto, tudo precisa ser explicado. Se o que lemos na mídia traz alguma ponta solta ou que não faz sentido, iremos procurar alguma forma de preencher as lacunas.

O viés da confirmação

Nunca falamos tanto sobre viés da confirmação, especialmente após o fenômeno filter bubble — que é quando algoritmos fazem escolhas sobre o que você quer ler e consumir com base em comportamentos anteriores. O efeito colateral disso é que, se você gosta do Bolsonaro, por exemplo, vai ser varrido de textos e posts sobre ele, a ponto de acreditar que o mundo inteiro está ansioso pela chegada do próprio à presidência. Isso acontece porque algoritmos entendem que seres humanos gostam de ler coisas que confirmem suas crenças, e não o contrário, o que gera maior engajamento e, por consequência, mais dinheiro para quem provê tais conteúdos.

O viés da confirmação serve também para as teorias da conspiração. Se alguém te contar alguma teoria maluca, sem pé nem cabeça, com contornos de delírio e drama, mas que vá completamente ao encontro de algo que você tem como verdade absoluta, pode ter certeza… você vai acreditar! A confirmação é prazerosa e recompensadora, enquanto o confronto de verdades é muito desconfortável.

Portanto, se você acredita que todas as farmacêuticas são empresas corruptas, gananciosas e inescrupulosas, vai ter uma grande propensão em acreditar na teoria da conspiração de que a Aids foi um vírus fabricado em laboratório por malucos que queriam varrer os homossexuais do planeta; ou, se acredita que riqueza é coisa do capeta, vai adorar as teorias de sociedades secretas, como os Illuminati, por exemplo, que dizem que empresários e governantes poderosos se juntam constantemente para arquitetar decisões importantes que tenham como único objetivo manter e elevar o poder já existente no grupo.

Símbolo dos Illuminati

Então, antes de acreditar (ou desacreditar) em qualquer teoria conspiratória, faça uma autocrítica para entender se você não está sendo vítima do viés da confirmação. Ele pode ser muito perigoso! A pior cegueira é daquele que não quer ver.

A mesa do bar precisa de algo além de futebol, sexo, política e religião

Quem não gosta de uma boa história para contar aos amigos? Alguns mais que outros, mas todos gostam de contar histórias — suas, de conhecidos, de parentes, que ouviram falar ou que leram em algum lugar.

Esta é a principal razão, na minha opinião, para que surjam as teorias da conspiração mais bizarras. A minha preferida — que serviu muito para pautar conversas de bar — é a de que o Paul McCartney que conhecemos hoje, na verdade, é um falsário. Segundo a teoria versa, o verdadeiro Paul McCartney morreu em um acidente de carro quando os Beatles estavam começando a decolar e a saída brusca de um integrante de tanta importância poderia estragar a ascensão do grupo. Por isso, foram buscar uma pessoa muito parecida, que também sabia tocar guitarra, para substituir o Paul original — obviamente, algo assim não seria possível nos dias de hoje de selfies e redes sociais, onde fica tudo minuciosamente registrado nos livros da internet.

Alguns entusiastas dessa teoria apontam vários elementos para justificar o falsário Paul. As minhas preferidas referem-se a capas de dois discos dos Beatles. O primeiro é o lendário Abbey Road, na qual, numa primeira vista, os quatro integrantes atravessam despretensiosamente uma rua em Londres; porém, há quem jure que a cena representa um enterro, em que Lennon é o padre (vestido de branco), George é o coveiro, Ringo é o cerimonialista (de preto) e Paul é o defunto — o único a estar descalço e de terno. Aqui, outro fato curioso, é que Paul segura um cigarro na mão direita, algo estranho para um canhoto — ah, mas aí entra a teoria de que o falsário Paul precisou aprender a tocar guitarra como canhoto mesmo sendo destro de natureza, para que o público não percebesse sua mudança. Outra capa dos Beatles que mostra o enterro de Paul é a do, também lendário, Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Recheada de símbolos e personagens, teóricos da conspiração listam diversos elementos que remetem ao enterro do verdadeiro Paul, como todos os Beatles jovens vestidos de preto e as flores frontais que simulariam um funeral.

Capa do CD Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band (1967)
Capa do Álbum Abbey Road (1969)

Portanto, independente de acreditar ou não, saber uma teoria da conspiração na ponta da língua lhe trará muitos assuntos — às vezes, bem menos polêmicos que futebol, sexo, política e religião.

E você, o que achou disso? Pensa em alguma razão a mais? Qual sua teoria da conspiração preferida?