Passo ao sul. Ao leste nasce o sol.

Um velho caminhava em direção ao sul, mal sabendo ele que os seus passos eram registrados por algum olhar atento que pairava nesta cidade em seu anonimato. O olhar pausa o passo esperando que ele avance para que a sua observação fosse mais cautelosa, sinuosa poesia que brotava na mesma intensidade sinuosa que aqueles pés tocavam o chão coberto por pedras portuguesas. Acima da cabeça, grandes copas de árvores.

Era um velho branco, com as características daqueles senhores burgueses da Bahia do tempo de Jorge Amado e os Capitães da Areia. O seu rosto não podia ver, mas registrou cada detalhe de dentro, desde que visto pelas costas que transpareciam pelo olhar curioso. Ele tinha um belo chapéu branco amarrado com uma fita de cetim preta que assentava na sua cabeça grisalha, apesar dos poucos fios aparentes. Fios escorridos. Escorregadios, quase brancos de tão nulos, aliás, quase nulos de tão brancos. Era um velho senhor com chapéu branco na cabeça, uma calça esverdeada de linho que caia perfeitamente sobre o seu corpo esguio. Branco. Uma camisa branca, daquelas três quartos, devia ser de botão, mas este detalhe não aparecia perante aos olhos castanhos. Nos pés um sapato social, preto, bem engraxado cobria-lhe cuidadosamente. Houvera em toda esta cena, um cinto marrom que ornou com os tons do corpo branco e das vestes.

O olhar curioso tomou sua própria atenção ao que na mão esquerda o velho carregava. Branco. E ao ato rotineiro para os dias. Ato este que ganhará mais clareza quando maior ousadia tiver de se amostrar. Quando deixar dessa besteira do anonimato dos sentidos, sendo que tudo que a sutileza dos sentidos menos precisa é de ser anônima. Os sentidos são ousados, ou pelo menos deveriam ser. Os olhos nunca antes tinham visto o mesmo ato que eles fazem cotidianamente quando se põe a andar pela cidade. Entre seus muros engradeados. Nunca antes tinha visto o mesmo ato repetido por mãos de outra pessoa, senão por suas próprias mãos. Mas este velho surgira nesta noite de quase natal, entre as luzes brancas que brilhavam amarrada nas grandes árvores centenárias para mostra-lhe o ato por outras mãos. Brancas.

Ato sutil, de gente boba, jovem, descabelada, que aprendeu a brincar assim, como forma de tomar a cidade para si. De ser sua companhia. Como forma de se sentir invisível, de negar o espaço segregado, a separação dos corpos. Pela cor. Pela classe. De negar o medo de ser livre, o medo de conhecer o outro, de se entregar ao outro num sorriso largo que mostre as águas que correm dentro. De negar o medo bobo de sermos bobos. Porque é isso que somos em verdade. Bobos. Este ato é essencial ao dia dos olhos que caminham pairando por ai. Pelo ar. Pelo mar que sempre ia. Mar ia.

Olhos cautelosos pelo movimento lento, de passos de homem lento. Na mão esquerda o velho carregava dentro de uma sacola de supermercado um panetone. Carregava o Natal próximo. Sacola branca que encobria por partes a embalagem vermelha e um laço vermelho em fita de cetim, só conseguia enxergar um pedaço, o suficiente para estar. Aquele panetone deveria ser presente, talvez para si próprio. Para aqueles olhos um filme se criou. Uma família toda esperava aquele panetone. Na sala de estar uma grande árvore de natal, arrodeada de presentes para os netos. Na cozinha, comida farta. Mesa cheia. Nos corações, a sensação do natal que já renasce aos poucos. De acordo com os dias que passam. Aquele velho entraria pela porta com os mesmo passos lentos de rua, abraçaria sua esposa, uma velha grisalha muito simpática. Um dos seus netos correriam ao seu encontro e o quase derrubava ao chão de porcelanato. Branco. Aquele laço seria desfeito, o panetone aberto aos desejos de natal. Ele deitaria na sua cadeira de descanso, abriria um livro e dormiria ali mesmo. Costume de velhos.

Mas a verdade dessa história é outra. Na rua, os passos lentos de velho demonstravam o cansaço de um homem só. Branco. Claro e evidente a sua solidão. Neste instante era o Natal que o acolheria. Esse sentimento de união. Família, mas nem todos tem. Nem todos tem família. Ele estava só, indo ao encontro do seu eu só. Na rua ele estava só, junto aos olhos que lhe acompanhavam. Era uma companhia anônima. Mas buscava ser doce. Aqueles passos miúdos, cansados, lembravam de um passado jovem, aquele vento da boquinha da noite trazia-lhe nostalgias. Trazia-lhe a saudade de um homem do passado.

Ele estava ali, caminhando pela rua arborizada, área nobre da capital baiana indo para seu lar. Abriria a porta, o vento que cruzava da janela até a porta de entrada o receberia. Um piso de madeira velha rangia como os dentes quando choravam de saudade. Ou de felicidade das lembranças doces. Mas era um velho triste. Apoiaria o panetone na mesa da sala de estar. Iria até a cozinha, colocaria um vinho numa taça esguia como o seu corpo e tomaria em goles bem dosados. Era um velho sofisticado. Aprendera apreciar vinhos numa viagem à Europa. Mas era sozinho. Desfazia o laço de cetim vermelho. Sentia o cheiro pairar pela casa toda. Cheiro de panetone é único. Como a solidão do velho. Branco. Se encaminharia até a varanda, cheiraria o seu manjericão, regaria seu alecrim e cuidaria do pé de arruda para afastar o mal olhado. Se sentia pesado nesta semana que quase findava. Relaxaria seu corpo esguio numa cadeira de descanso, tiraria dos pés os sapatos. Apanharia da estante do lado o seu livro favorito de poesias amargas e leria em voz alta para si mesmo. Era sua felicidade. Repetia infindáveis vezes o seu poema favorito o qual dizia: “ estar só é amar sua solidão. É lutar pelo anonimato dos sentidos. É não saber quem se é pela falta do amor do outro. Mas estar sozinho é ser poeta. Poeta do amor seu e do amor amargo dos outros”. Repetia e em meio as repetições sorrisos em proporções desmedidas saltavam pelos seus lábios rosas. Ainda tinha dentes ligeiramente brancos. Deixou de fumar há alguns anos. Sentado na cadeira de descanso, olhava o horizonte pela varanda entre os pés de manjericão e alecrim. A casa tinha um cheiro leve, as vezes só o corpo pesava ali. Mais um gole dosado do seu vinho. Apoia o copo na beira da estante e ali mesmo dorme. O som da vitrola toca a sós. Era de costume dormir ao som de uma bossa nova, aprendera com seu pai o bom gosto musical.

Na mão direita, branca, carregava um jornal enrolado tido para os olhos como já lido. E foi assim que o ato rotineiro de repetiu por outras mãos. Brancas. Corpo esguio próximo dos gradis dos luxuosos condomínios da Cidade Alta, fazia questão de ser sutil ao levantar seu braço, pensava ele que ninguém estava posto a observá-lo e que bobo seria se assim fosse. O jornal enrolado saia deslizando pelos portões fazendo um som típico do cotidiano. Tristeza para ele era não ter uma grade. O ato se repetiu vezes incontáveis. Olhos paralisados, enfeitados pela beleza do momento puro. Momento de gente boba, jovem. Que tipo de velho enrolaria o jornal e teria prazer em deixá-lo rolar pelas grades? Um tipo de jovem velho. Bobo. Descabelado. Um velho sozinho que aprendeu com os dias a amar sua companhia. Ali, no seu juízo, o seu eu é seu parceiro melhor amigo. E não há quem duvide disso. Ato de beleza singular nas noites de sempre verão. Passava o jornal velho deixando para trás todo conteúdo lido asqueroso. Deixando ligeiro a maldade escrita. Ali, o velho limpava seu corpo das impurezas de um dia que pesa. De uma solidão que pesa. De um amor tão seu que por tanto precisaria de tantos outros eus.

O jornal passava, os olhos cada vez mais próximos, ansiosos para chegar e compartilhar o momento. Nunca vira antes o ato feito por outras mãos senão as suas próprias mãos. Queria olhar nos olhos, enxergar a camisa de botão. E, acima de tudo, ver o semblante daquele rosto branco e velho. Ver paz da velhice misturada com o cansaço dessa vida. Os passos jovem atravessam o velho que continua a caminhar com sua vida lenta.

Olhos jovens solitários, mas em outra dimensão da solidão. É uma solidão que corre ansiosa pelo dia do amanhecer. Passos lentos causam arrepio, nostalgias. Os olhos escutam antes da distância da saudade a última vez que o jornal toca as grades, enxerga pela última vez o laço de fita de cetim. Vermelho. Natal. O olhos sentem agora seu corpo transparecendo perante os olhos velhos. Sabe-se que ele olhará e enxergará o seu passado jovem, de passos ligeiros, ainda no tempo quando aprendera a gostar de bossa nova, quando assentava o chapéu por malandragem, não por cobrir os fios brancos escorregadios que correm na sua cabeça de vento poesia velha, amarga, mas sempre poesia. Transparece os dias que passaram. Mais perto do sul, some. Os olhos tomaram o caminho para onde o sol nasce: Ao leste.

Passo ao sul. Ao lesto nasce o sol. E assim se vai indo.

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