Todas as Marias que pariram o mundo.

Nasceu! É menina! se chama Maria. Maria nasceu e mal sabia ela quem seria no futuro. Ela seria avó de alguns netos, mãe de alguns filhos, esposa de um homem, bisavó de alguns bisnetos, amiga de alguns amigos, analfabeta de escrita, sábia da vida, mais tarde seria viúva, velha, cansada, professora dos netos, aquela que capinava o terreiro, que fazia o café, que colocava as roupas para quarar e que amava tanto que quando nasceu ela nem sabia. Nasceu quase índia, a avó da avó da mãe dela era índia e morava numa aldeia do mundo. Aldeia de tantas outras Marias. Aldeia que pariu o mundo. Que pariu o povo. Que pariu esta Maria. Maria cresceu, esperneou, sorriu jovem, pariu tantos mundos, esteve a sós, em par, em família. é preciso ter gana, Maria. Ela teve e com toda sua manha chegou no hoje. Maria corria, subia na cancela, tangia o gado, vestia saia de flores, cuidava dos irmãos. Maria se apaixonou. Nasceu na juventude pelo amor. Maria me emociona. Me faz enxergar ela correndo por dentro do capim alto, mal cortado pela pouca fome do gado solto. O amor é uma coisa boa.

É menina bem criada. Maria foi mulher ruim, se moldou assim por saber que na vida a gente não só pode exalar o cheiro de jardim florido. Maria foi ruim por medo de ser boa demais. Mas a velhice chega e tudo chega junto, inclusive o arrepender-se. Maria é rabugenta, dura na queda quando tem que dizer sobre o amor. Não é das mais claras com o sentir e demonstrar. No seu canto, tira o cochilo da vivacidade. E anda pelos quatro cantos da casa de quintal falando sozinha, reclamando de tudo, até do vento que bagunça os seus fios brancos. Maria é muito discreta sobre si e pela idade, pelo pouco a se fazer, tem como hobby debruçar sobre a janela e ver a vida passar. Os gatos miarem. Todo final de tarde, todo final de tarde ela molha as plantas do quintal, chupa uma acerola em tempo de fartura. Maria mal sabia de tudo que iria acontecer e que jamais alguém escreveria. Essa parte é história só de Marias.

Nasceu! É menina! se chama Maria. Maria nasceu e mal sabia que seria negra. Mal sabia ela que seria uma das Marias mais lindas desse mundo. Mal sabia ela que seria mais Bela Maria Poesia dançante por ai. E que mais tarde iria parir mundos. Mundos plurais, intensos. Mundos de dentro dela. Mundos que toda Maria é, mas quando nasce não se sabe. Choram Marias por aqui. A dor de parir o mundo, Maria me conta num sonho bom. Maria diz que parir o mundo é se parir, e que nada seria se não tivesse sido assim. Pariu um, ouviu o choro alto, quase ensurdecedor. Pariu dois, ouviu o choro da força de Maria. Pariu três, ouviu o cantar das palavras sobre o amor de todos as Marias que pariram o mundo. Mal sabia Maria que negra seria, que negra paria, que mulher solteira seria. Mal sabia Maria da saudade, do amor que se foi. Maria tinha mãos cansadas de tanto esfregar as roupas, tinha os pés cansados de tanto caminhar e arrumar a casa dos patrões. Maria, quando adolescente, cuidava dos irmãos. Mal sabia ela que teria irmãos e que seria a mãe deles. Cuidava bem. Ouço boatos por ai dessa história de Maria. Mulher boa, cuidadosa como Oxum. É mole, Maria ficou descalça e deu seus sapatos para sua irmã. Maria nunca se importou com isso. É futilidade para ela. A vida de Maria é o silêncio desconhecido. Dentro dela passa o mundo, correm rios, ondas de mar, terra vibra como num terremoto, brota árvores. Nasce mundos. Maria retada. Suportou o mundo nas costas.. Fixou o amor no olhar e a saudade nas lágrima quando pouco caiam. Esta Maria sorri de chorar, cair no chão e ficar com a barriga doendo. O remédio é colocar ao lado direito uma folha verde e acreditar. Logo passa a dor. Ensinamento ancestral. Maria corria pelo mato, lavava roupa no lajedo, fazia comida em casa e ainda, no final da tarde montava sua trouxa com um pano de prato e corria ao encontro de buscar água na cabeça. Equilibro pouco Maria tinha muito. Amiga dos meninos homens, discreta de tudo. Fala manso, ama muito, sofre calada em alto mar de si própria. Gargalha com seus mundos e ensinou-lhe o sentido e verdade do silêncio. Nem sempre as palavras ensinam. Para esta Maria às vezes as palavras soam arrogantes, prepotentes demais sobre o amor que jamais se poderá dizer. Maria ama em segredo. Na calada da noite. No mundo de Maria os gestos são os gestos e não há quem duvide disso. Trabalhadeira. Maria às vezes lerda, para ela tudo está bom. Ingênua que só Deus na causa, deu a cabeça como degrau para outros, mas para ela a sua missão se concretizava assim. Maria Negra, sempre se subjugou, nunca foi lá essa mulher de acreditar muito em si. Se amar? Oxe. Para quê? Maria sempre quis foi amar os outros. Amar seus mundos paridos? Ave Maria Mãe de Deus, deu o mundo dentro de todos os tantos outros que nasceriam. Papel de dois em um, mulher solteira resistiu. Maria faz cuscuz quando a noite chega, cochila assistindo televisão e dança quando escuta um som. Maria dança meio desajeitada, mas ela aprendeu a dançar com a vida, esta que nunca foi lá essas coisas. Na dança da vida o descompasso era o que fazia dançar. Simetria não existe. Todo dia um leão morto com unhas e dentes. E passos descompassados acompanhavam a trilha sonora de ruídos. Mas nada disso abala Maria. Ela tem vontade é de viver leve, espírito de jovem viajante, de mãe brilhante, Maria voa alto nos seus devaneios quando deita. Ah, quando deita, Maria reza sentada, com os pés cansados sempre cobertos por um lençol finíssimo que quase não abate o frio da madrugada, Maria concentrada. Ela gosta de rezar o Creio em Deus Pai, aquela assim: “ Creio em Deus Pai/ Todo Poderoso/ Criador do Céu e da Terra… Nasceu da Virgem Maria… Amém…”Depois de toda história jamais contada por palavras, parte da história calada que pertence só as Marias, se esta Maria não for para o céu, ninguém mais vai. Boa de Deus benza, chega a ser besta, mas é uma besta que ama, então, ser Maria é um dom de ser besta no amor. Maria merece parir todos os mundo e renascer a cada faísca levada pelo vento de uma fogueira de São João na porta de casa. Tantas faíscas clareiam o olhar da mulher cheia de graça. Que estranha mania, Maria, de viver flutuando. Semeando a paz de mãe. Maria acredita e vai. Espaço este agora, para os devaneios sobre esta Maria Maria Maria que mistura a dor com amor e é tão maior. Ela sabe o que faz.

Nasceu! é menina! se chama Maria. Maria nasceu e mal sabia ela que moraria longe de casa, que não concluiria a escola, que seria quase aquela que não fala por preguiça. Mal sabia ela que casaria, batizaria seus mundos paridos, nasceria com o dom das comidas deliciosas. Maria sabe bem. Limpa, que Deus benza. Todo mundo trata Maria como a nojenta de tão limpa. Gosta de dar risada atoa, muito tímida quase não levanta a cabeça. Ama perfumes e vai seguindo pela vida sem ninguém a esquecer. Maria calada, tem pouco cabelo e cuida da casa como ninguém. Exagerada…. Maria gosta de apelidar as pessoas acompanhada com muita gargalhada. Maria já gosta de rir. Parece que o mundo de Maria parou. O tempo parou. O movimentar agora é outro. Da saudade da infância quando lembra que corria para lá e para cá. Curiosa pelo mundo, pelo novo. Vive como toda Maria, de fé, coragem e força. Mulher forte. Um, choro mudo. Dois, choro corrido. Felicidade! Toda história que resta pertence somente as Marias.

Nasceu! é menina! se chama Maria. Maria Nasceu e mal sabia ela que paria um mundo não tão jovem assim. Que casaria, sairia da casa de mãe. Maria é tímida demais. Sede de independência, gosta de ter suas coisas e odeia que a estresse muito. Maria estressada é coisa séria. Ouvi dizer que quando Maria está assim vira comédia. Por ai você já tira, como uma pessoa estressada se torna engraçada? Só podia ser Maria, bem que me disseram. Corpo magro, cabelos negros, sorriso calado, olhares escritos poeticamente pela mãe dos céus. Diz tudo. Quase um olhar algo. Transparente. Agoniada, Maria corre contra o tempo. Vai trabalhar, chega correndo, come, sai. Desajeitada para a dança também. Fã de Legião Urbana, adorava usar roupas acima do umbigo, quando jovem. Cresceu aprendendo a trabalhar para colocar comida em casa. Mulher de fé. Maria vivia na missa e reza todo santo dia de Meu Deus. Um choro esperando se escuta. Toda Maria chora porque vive. Só por isso. Então é saúde. Saúda! Vive na dela, sem interferência nas vidas alheias. Não sei por que, mas esta Maria me lembra uma máquina de datilografar e seu barulhinho é prazeroso. Pariu mundo novo. Maria também. Mal sabia Maria que ela iria parir o mundo do conto de fadas. Quase fada. Felicidade é sinônimo de casa cheia. Tudo junto. Toda história que resta pertence somente as Marias.

Nasceu! é menina! se chama Maria.

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