Não é a nossa roupa, é a nossa epiderme

Natália Silva
Jul 21, 2017 · 3 min read

No início do ano, eu estava conversando com alguns colegas sobre racismo. O papo não foi produtivo, infelizmente eu quase nunca consigo expor minhas opiniões... Enfim, foi nessa conversa que chegou a desculpa de que as vezes o problema não é a cor da pessoa, mas a roupa que ela usa. Eu não concordei, mas não consegui me expressar bem, então eu dei um exemplo x e a conversa acabou pouco depois.

Essa conversa já tem um bom tempo e eu voltei a pensar nela, porque eu fico muito reflexiva quando passo por uma situação que envolva racismo, tá ligado? A situação foi: ir com uma amiga ao mercado e ser seguida por seguranças, nada novo sob o sol mores, mas é sempre foda.

Por isso que eu acho massa esses mano que filma, tira foto, posta em redes sociais; na intenção de expor que isso acontece. É importante ressaltar que a última intenção dessas pessoas é se aparecer, firmeza? Mesmo porque, as pessoas vivem não dando credibilidade para as nossas falas, vivem tirando a importância da nossa vivência, vivem levando casos de racismo como exceções e as vezes é necessário mostrar que essas situações não fogem tanto assim da realidade.

A questão é: eu estava bem vestida, a minha amiga também. E na real, a gente bem sabe que independente da nossa roupa, aquilo aconteceria.

Infelizmente negros são encaixados em diversos estereótipos e cada roupa vai contribuir para um tipo diferente. Para muitos é mais fácil acreditar que um homem negro de terno preto é segurança, mas quase nunca que ele é um executivo. É mais fácil acreditar que crianças negras de bermuda correndo na praia são pivetes que passarão a mão no seu celular, mas quase nunca que elas estão ali só se divertindo; é mais fácil acreditar que artistas negros como a Taís Araújo, venceram na vida se tornando famosos, do que supor que eles já tenham nascido em uma família de classe média alta.

Aí ó

Essas imagens foram tiradas de uma campanha feita pelo Governo do Paraná, basicamente o vídeo mostra as diferentes formas que as pessoas interpretam negros e brancos. Veja o vídeo aqui.

As pessoas chegam a conclusões sobre corpos negros de maneira muito fácil e na maioria das vezes nós somos encaixados em estereótipos negativos, aliás existe estereótipo que seja bom?

Convite para você parar de ser preconceituoso encaixando as pessoas em esteriótipos. A sua única opção é aceitar.

Eu só quero dizer que se você segura a bolsa quando vê um cara preto na rua, você tem que assumir isso pra você mano, vai ficar se enganando pagando de desconstruída/o na internet até quando? Se você não assume ser racista, você não pode deixar de ser racista.

Então, deixa de ter essas atitudes logo, porque tá foda ver criança negra sendo criminalizada, homem negro com roupa de marca sendo taxado de traficante... Tá foda ser seguida no mercado, mais foda ainda, ler notícia de jovem que levou tiro de policial porque ele confundiu um pacote de pipoca com droga… Jhonata, você vive. Será cobrado mano.

E tudo isso porque a nossa roupa faz com que a gente se pareça com bandidos?

Not today.

Eu posso ter sido equivocada e não ter entendido a sua fala em algum momento, desculpem-me. Refletindo eu percebi que talvez não exista maldade na sua fala e que talvez vocês estivessem se referindo a roupa que nós não podemos despir: a nossa epiderme.

Enfim, passar bem.

)

Natália Silva

Written by

Ciência política — Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro | 19 anos |

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