Não fique aí parado e faça!


Não ser um observador passivo ou um sonhador que arregace as mangas são atributos não somente necessários para os profissionais em qualquer cenário, como também integrante do propósito de mudarmos um pouco do traço cultural brasileiro de se posicionar como vítima ou peão, culpando terceiros ou agentes externos em qualquer situação difícil.

A atitude mental é fundamental nesse contexto. O “mandar ver” vem em boa parte fundamentado na confiança que o indivíduo tem em si, e, principalmente, na sua capacidade de transformar as coisas, mudar estágios, cruzar limites, enfim, possuir confiança em seu potencial criativo pois sabe que plano ideal é um sonho. Por isso, estando certos ou errados, os indivíduos avançam, sabendo que tem o poder de ajustar a trajetória a qualquer momento, experimentando novas ações e aprendendo continuamente.

E o que dizer da nossa forma de encarar o mundo e os seus problemas?

Para compreender a atitude mental do “faça alguma coisa”, é preciso entender que em lógica podemos distinguir três tipos de raciocínio: dedução, indução e abdução.

O método dedutivo, central na geometria aristotélica, determina que “não podemos conhecer os objetos posteriores que não derivem de elementos primeiros”. Os eventos futuros são, por isso, a consequência da realização dos eventos anteriores. Impõe-se um limite do processo de atuação, um “fim último”, uma entelequia; que podia ser adjetivado de peiron (limitado, claramente determinado). Em bom rigor, os pioneiros ainda o associavam ao apeiron — algo logicamente incoerente.

Argumentos dedutivos são avaliados em termos de sua validade e solidez. Um argumento é válido se ele é válido e as premissas são verdadeiras; em que um raciocínio exige um precedente, que por sua vez exige outro precedente, ad infinitum.

No método indutivo, a conclusão é atingida por generalização ou extrapolação a partir de informações iniciais. Como resultado, a indução pode ser usada até mesmo em um domínio aberto, aquele em que há incerteza. A indução consiste em afirmar acerca de todos, aquilo que foi possível observar em alguns. A indução faz a generalização, isto é, cria proposições universais a partir de proposições particulares. É, portanto, uma forma de raciocínio pouco credível e muito mais susceptível de refutação. A indução, ao contrário da dedução, parte de dados particulares da experiência sensível.

Em um processo de mudança de era, onde a era industrial está acabando e a era digital já começou, as premissas que nos trouxeram até aqui não são mais válidas. Se a lógica tradicional só distingue dedução e indução, como se dá a criação das premissas e das teorias para encararmos um novo mundo?

“O problema com o futuro é que é diferente. Se você não é capaz de pensar de maneira diferente, o futuro sempre chegará de surpresa”
Gary Hamel

A abdução foi a noção que Charles Sanders Peirce adaptou. É uma inferência hipotética (um lampejo, uma idéia, um ato de insight) e, provando que algo pode ser, é o método que cria novas hipóteses explicativas, não contidas nas premissas.

Dos tipos possíveis de inferência, portanto, a abdução constitui o único que se projeta para o futuro, já que tanto a dedução quanto a indução dizem, do já conhecido, na medida em que se referem à experiência. Seus limites estão pautados pelas premissas. Como palpites, os processos abdutivos podem levar a erros, mas a falibilidade de uma hipótese não quer dizer que a abdução seja um processo de ensaio e erro. É um processo de teste e aprendizado!

Embora essa forma de argumento não ofereça segurança quanto a sua verdade, o seu valor em produtividade é elevado. A abdução “simplesmente” prova que alguma coisa pode ser.

O design thinking pode ser considerado o método de solução de problemas que mais se aproxima do método abdutivo, onde, concentrando-se no presente e no futuro, os parâmetros do problema e suas soluções são exploradas simultaneamente. Nesse sentido é uma forma de pensar baseada ou focada em soluções, com um objetivo inicial, em vez de começar com um determinado problema. Ao identificar e investigar tanto aspectos conhecidos como ambíguos, busca alternativas possíveis que podem até mesmo redefinir o problema inicial.

Sim, e desta forma, associando o desejo de querer mudar a uma metodologia que oferece a possibilidade de se pensar de uma forma diferente, podemos deixar de ficar passivamente apenas olhando e passarmos a agir de uma forma inovadora em prol da mudança que esperamos que aconteça.

“Planejar é lindo, mas quando fica no papel é feio. O negócio é FAZER”.
Dudu Obregon

Com um método adequado ao nosso tempo, conseguiremos resolver todos os problemas? Não sem antes colocar a mão na massa.

Por melhor que seja o plano, a solução só existe quando posta em prática. Não adianta sentar e ficar planejando, como faziam os japoneses — 80% do tempo planejando e 20% do tempo executando (ou mais recentemente os chineses!) — porque esse pensamento partia da premissa de que o futuro é previsível. E hoje, com a hiperconectividade, o futuro é tudo menos previsível. O futuro, o ponto B da curva A-B, dança, pula e corre mais do que passista de escola de samba no Carnaval do Rio de Janeiro. O ponto B da curva é incerto.

O planejamento de longo prazo acabou!? Ele também está se transformando. Planos de longo prazo em ambientes de grande vulnerabilidade, incertezas, complexidade e ambiguidade tornam-se questionáveis. A era digital demanda planos curtos, mais próximos de um processo de validação recorrente de hipóteses. E, principalmente, execução rápida — associada a mecanismos de iteração para garantir que os erros e acertos gerem aprendizados.

Trial and error: test and learn, not launch and fail

Pense em todos os projetos elaborados cuja implantação contou com todos os integrantes alinhados, todos caminhando na mesma direção, uma verdadeira equipe engajada e comprometida com os resultados extraordinários do projeto.

Em um ambiente organizacional tradicional isso só é possível com um esforço enorme da alta direção, que investe tempo e recursos financeiros em atividades para manter o time trabalhando alinhado com um mesmo propósito. O time, por sua vez, tenta equilibrar os diversos pratinhos e cada um procura fazer a sua parte da melhor forma possível.

Porém, ao final, stress, atrasos e entregas com qualidade abaixo do esperado ou desalinhadas com as expectativas dos clientes são mais frequentes do que se gostaria.

O cliente muda. Enquanto o time está trabalhando no projeto, ele está tendo novas experiências, vivendo o mundo, sendo influenciando pelas suas redes e conexões. Assim, utilizando-se metodologias ágeis de gestão de projetos as empresas de TI tem conseguido promover grandes mudanças no mundo, fazendo mais com menos.

A principal questão está no fato de que o modelo tradicional de planejamento só entrega valor ao final do projeto. Em um modelo seriado de atividades, a agregação de valor para o cliente só ocorre quando o produto final está pronto. Enquanto isso, o que acontece com o ponto B? Ele muda de lugar!

A gestão ágil de projetos segue princípios que permitem que a entrega de valor será gradativa, assegurando a entrega de valor para o cliente desde o início do processo, e com incrementos perceptíveis a cada nova iteração. O feedback com o cliente é um processo de colaboração e deve ser absorvido pela equipe como aprendizado. Erros e acertos são inputs para a retroalimentação do processo, e tem o mesmo peso. Ninguém fica se gabando porque acertou e muito menos crucificando alguém porque errou. O foco está nas pessoas e suas interações. Todos os bônus, assim como o ônus, são da equipe — um por todos e todos por um!

O conceito já extrapola as fronteiras das organizações e avança na forma como as pessoas se relacionam e se divertem. O que o Lego fez pelas gerações analógicas o Minecraft, que já possui mais de 20 milhões de usuários registrados, está fazendo em uma escala ainda maior pela geração Y. Um jogo que se baseia no conceito de fazer junto em um mundo sem fronteiras. Os jogadores não competem entre si em lutas ou corridas, mas tem o objetivo de montar os cenários para que as histórias se desenrolem. O limite é a criatividade. Não há competição. Há cooperação. Nesse ambiente, o que existe, não tem fim!

Esse movimento não está ocorrendo apenas no mundo digital. A massificação do acesso à tecnologia e da conectividade está permitindo que qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, possa produzir em menor ou maior escala qualquer coisa.

O movimento maker é derivado do conceito de faça-você-mesmo, fortemente difundido nos EUA, mas que vem ganhando adeptos em todo o mundo. Colocando a ênfase do aprendizado no fazer, promovendo uma cultura de informalidade, o aprendizado é compartilhado entre os membros do grupo, cuja motivação é a diversão e a satisfação pessoal. A definição do termo “maker” é um pouco imprecisa, mas está relacionada com a geração Y que ao invés criar softwares resolveu criar “coisas reais”.

Assim, são nestes ambientes colaborativos que estão surgindo as inovações neste novo mundo. Empresas pequenas e de espírito empreendedor estão aproveitando desta agilidade e pensamento criativo para desafiar as grandes organizações, que tem dificuldade para se libertar das amarras corporativas que produzem gargalos nos seus processos de inovação.

Flexibilizar as hierarquias e passar a trabalhar em times focados em cocriação, libertando-se do medo de errar (abandonando a punição e produzindo aprendizado a partir desse) e tornando-se ambientes de empoderamento permitirá que as pessoas se comuniquem de forma mais aberta, trabalhem engajadas e sintam-se satisfeitas em participar do processo.

Assim, adotando o modelo mental abdutivo, capaz de reenquadrar o problema e as suas premissas, gerando novas perspectivas para construir soluções verdadeiramente inovadoras, e um modelo de gestão ágil de projetos, que valoriza a equipe e as entregas, que permitam responder às mudanças de forma rápida, será possível promover o aprendizado e a inovação dentro das organizações, sejam elas startups de fato ou de espírito.

É baseado na crença de que “aprendemos fazendo e inovamos construindo” que a Multiverso trabalha. Não é só um discurso bonito mas uma prática intrínseca da nossa forma de ajudar as empresas e os empreendedores a tornar os seus negócios relevantes nesse novo mundo.

#vivaomultiverso

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