Aos 88 anos, ela pode ser considerada uma enciclopédia humana

Ela conheceu políticos e atrizes, brincou de pega-pega na Praça da República, acompanhou a Segunda Guerra Mundial do começo ao fim. Conheça a história de Arlette Ferreira Braga, uma mulher que sabiamente vive cada dia com intensidade e tira de cada experiência uma grande lição.

Nascida em uma fazenda localizada em Brotas, cidade do interior de São Paulo, filha de um agrônomo e uma professora. “Mas minha mãe era principalmente uma artista, tocava piano, violino, entendia de arte, era extremamente culta, adorava aprender coisas novas”, lembra. Mas Arlette teve uma infância bem diferente das outras meninas. “Como minha tia não teve filhos, ela participou ativamente da minha criação. Assim, eu passava metade do ano em São Paulo, com essa tia e o marido, respirando a vida de uma grande metrópole. Lembro de brincar na Praça da República, naquela época um local tranquilo e seguro, e de frequentar o Teatro Procópio Ferreira, para assistir espetáculos com grandes estrelas como a Dulcina de Moraes. Já nos outros 6 meses do ano eu ficava com meus pais e irmãos, no interior, e mergulhava em um ambiente musicalmente riquíssimo. Minha família tinha muitos músicos, que se reuniam pra tocar em casa. Era maravilhoso ”, conta.

Já na adolescência, Arlette mudou-se definitivamente para São Paulo. “Aproveitei bastante, ia a festas, tinha muitos amigos. Mas estávamos vivendo a Segunda Guerra Mundial, era um período conturbado. E aí, começou a florescer em mim a mesma sede de conhecimento que minha mãe tinha. Acompanhava as notícias da guerra pelo rádio, passava horas e horas observando o mapa e imaginando onde as tropas estavam posicionadas. Minha casa era frequentada por muitos generais e políticos. Eu ficava por perto, bem quietinha, atenta às conversas dos adultos, para descobrir onde as tropas iriam desembarcar, que país seria atacado. Além disso, tínhamos muitos amigos italianos, turcos e alemães que haviam imigrado para o Brasil. Por isso, de certa forma, todos os passos da guerra nos afetavam. Era um momento triste, mas muito rico de acontecimentos. Eu vivia mergulhada neste caldeirão de culturas e histórias. Foi justamente nesta fase que comecei a sonhar em ser enfermeira. Mas eu sabia que tudo não passaria de um sonho, já que antigamente as enfermeiras e atrizes eram mal vistas”, lamenta.

Ao fim da Guerra, Arlette embarcou com seus tios para a Europa. “Foi uma experiência muito impressionante ver de perto tantos países destruídos, lutando pela reconstrução. O sofrimento estampado no rosto da população e, ao mesmo tempo, uma determinação para superar os obstáculos e se reerguer”, conta.

De volta ao Brasil, Arlette seguiu o caminho da maioria das moças naquela época: se casou bem nova, aos 18 anos. “Mas foi um casamento muito feliz. Com meu marido me mudei para o Rio de Janeiro, que era a capital do país, e era maravilhosa. Uma cidade segura, limpa, linda. Lembro que íamos à praia à noite, sem perigo algum. Ali vivi por 12 anos e criei meus 4 filhos”.

Anos depois sua vida sofreu uma grande reviravolta. Seu marido faleceu repentinamente, e ela se viu viúva, com os filhos ainda pequenos e em dificuldades econômicas. “Mas sempre fui forte, e mesmo sofrendo, segui em frente. Para sobreviver, comecei a vender minhas joias. Depois, fiz um curso de ioga e passei a dar aulas — eu adorava! Tempos depois, finalmente fiz o curso de enfermagem, apenas como ouvinte, e comecei a trabalhar como voluntária no Hospital das Clínicas. Olho pra trás e vejo que os momentos difíceis e tristes permitiram, de certa forma, que eu realizasse meu sonho de ser enfermeira”, diz.

Agora, aos 88 anos, com uma disposição de dar inveja, e uma excelente memória, Arlette ensina o segredo para chegar tão bem a esta idade: “Adoro a vida, aproveito todos os momentos. Gosto de estar cercada de gente, de rir, brincar, e ser feliz”.

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