Vivência individual não é argumento. Será?

SIM, a sua vivência pessoal não é argumento para discutir problemas que ocorrem com outras pessoas.

Confesso, demorei pra aprender isso e já usei minhas experiências como argumentos. Hoje, evito criar discussões com base em minhas vivências individuais. Afinal, o que pode não ter sido um problema pra mim, é um grande problema para diversas pessoas.

(Imagem: Pós-Moderno)

Mas e se considerarmos as vivências de outras pessoas para formarmos um argumento?

Diversas vivências individuais formam argumentos, sim.

Em pesquisa, vira objeto de estudo e até ciência, dependendo do caso. Inclusive, é aí que se encaixa a antropologia, que estuda o ser humano com base em seu comportamento e seu meio ambiente.

Se vivência individual fosse verdade universal, bastava que as pesquisas se baseassem numa só experiência e opinião para dar o resultado. Já pensou: “Pesquisa mostra que fumar não mata”? (Usando como base apenas a experiência pessoal da minha bisavó, que fumou até os 95 anos e não morreu disso).

Na ciência, deve-se pesquisar amostragens com centenas ou milhares de casos para se criar um resultado e uma afirmação passível de ser uma verdade. E, mesmo assim, às vezes, a ciência erra.

Imagine a gente?

Vou usar um exemplo, o qual me fez pensar sobre vivências individuais e sobre o que é ou não “a verdade” (ou algo mais próximo a ela), num determinado assunto. Foi o que me levou a escrever este texto.

Vi compartilhada no Facebook a postagem de Marília Sampaio, que relata sua experiência de ser mãe no “desafio da maternidade” (que se tornou viral na rede social, com mães compartilhando fotos para mostrar como a maternidade é feliz). Ela diz que ser mãe é difícil, doloroso, entre outros adjetivos.

Embora ela deixe explícito que há momentos divertidos na maternidade, ela mostrou outra realidade: a dela. E de muitas mães.

Apenas um trecho:

Alguém me marcou num post aí que está sendo viralizado e não poderia perder a oportunidade. A verdade é que já falo das coisas lindas e das graças do meu filho sempre, mas procuro tomar cuidado pra não virar um personagem ou de que faço as pessoas acreditarem que é fácil. Não é.
É dificil pra cacete! É angustiante, é desesperador, é cansativo, é estressante, é foda! Maternidade é uma das coisas mais ambivalentes da vida. Você vai do céu ao inferno em 24 horas (aliás, várias vezes ao dia). Ás vezes você pensa “por que fui inventar de ter filho?”, pra na hora seguinte chegar à conclusão “como eu vivia antes sem ele?”.

Ela usou a vivência individual como argumento, de que ser mãe não é nada fácil? Sim.

Todas as mães têm tantas dificuldades quanto ela tem? Não.

Isso faz com que não haja mães que passem pelo mesmo? NÃO!

Lendo os comentários e vendo o número de likes e de compartilhamentos, é possível perceber que muitas mães passam pelos mesmos sentimentos e frustrações.

Inclusive, achei válido porque formou-se uma “corrente de solidariedade”, para mostrar às mães que passam por momentos difíceis, que elas não são péssimas mães e que querer fugir para as montanhas às vezes não é algo anormal. Mesmo que minutos depois elas mudem de ideia.

Por isso, compartilhei em meu perfil, porque são esses momentos difíceis que podem haver, que me fazem querer ter filho lá pelos 35 anos (ou mais). Resumo: gerei uma discussão com mães que são felizes com a maternidade e discordam de Marília, considerada por elas deveras pessimista.

Num grupo que participo no Facebook, o mesmo assunto surgiu, juntamente com pessoas que compartilham as mesmas opiniões de Marília, com outras que discordam devido às suas vivências.

Nas vivências dessas pessoas, não há tamanha dificuldade.

Novamente, são vivências individuais usadas como argumentos? Sim.

Devo desconsiderar as vivências delas? Não, vou considerar, pois assim crio meus argumentos e interpretações.

Com a postagem e discussão gerada, presumo que ser mãe pode ser fácil e muito prazeroso, mas também, pode ser angustiante e desesperador em inúmeros momentos. E essa balança pende em maior ou menor grau dependendo de diversos fatores. Ter um filho que é mais birrento ou não, varia conforme a personalidade da criança (nesse caso, vai na sorte), educação, ambiente, etc. Se uma mulher quer enfrentar qualquer uma das situações, está pronta para ser mãe.

Isso é argumento. Considerar diversas vivências e opiniões e fazer uma reflexão sobre o assunto após desconstruções de paradigmas.

É assim que evoluímos.


EDIT:
Marília fez uma nova postagem, contando como foi crucificada por compartilhar suas vivências de maternidade. E mais uma vez ela mostra como tem muita gente não disposta a evoluir, compreendendo outras vivências. Veja só:

A página Empodere Duas Mulheres, no Facebook, explica de modo bem didático sobre usar vivência individual como argumentos, com exemplos (usando assuntos muito mais problemáticos do que a maternidade).

E finalizo este post com os dizeres certeiros da página.

(Post de Empodere Duas Mulheres)
É verdade que o coletivo se dá a partir de muitas experiências individuais. Porém, a partir do momento que você usa as suas experiências individuais como argumentação universal, você está excluindo uma grande parcela das pessoas que não tem vivências como as suas. Por exemplo, ouve-se muito: “Ah, mas EU nunca fui estuprada, nem sofri nenhum assédio muito grave, então não acho que seja preciso uma medida emergencial contra os estupros no Brasil” ou “Eu nunca sofri abuso nenhum, tem mulher que permite que isso aconteça”. E tem outra coisa também: o fato de dizer “Ah, mas essa é só a minha opinião” não te faz um crítico especialista com relevância extrema acerca de todos os assuntos possíveis, principalmente sobre aqueles que você não tem vivência, especialmente quando usa esse tipo de argumentação de “opinião” para mascarar preconceitos e silenciar o coletivo.