TREVO

Luque sempre abusava da sorte. Na infância, apostava seus cruzeiros nas corridas entre os moleques da vizinhança; na adolescência, ganhou na loteria, não se sabe quanto, mas foi dinheiro suficiente para apostar em mais corridas, até os moleques crescerem e o dinheiro acabar. Ao se tornar rapaz, era de aparência diferente dos outros, pois ali, onde morava, todos tinham características mestiças parecidas, menos ele. Por que ele era tão diferente ninguém sabia, afinal, seus olhos verdes podiam ter sido nada mais do que sorte. Entretanto, onde passava era notado e as pessoas sussurravam:

— Olha esse rapaz, olhos verdes, todo sortudo!

De tanto ouvir isso, Luque tomou posse de dois sonhos: vencer o campeonato de futebol de botão de bairros e se tornar um médico oftalmologista. Mais tarde veio a conseguir realizar o último. Sua escolha profissional deveu-se a um pensamento interessante: ele insistia consigo mesmo, seus pais, seus amigos e até desconhecidos, que a razão de sua vida enraizada na sorte, era por conta de seus olhos, que possuíam a cor de um trevo de quatro folhas, por isso, queria admirar outros olhos e tornar aquilo seu pão de cada dia. Se Luque imaginasse de onde verdadeiramente vinha sua sorte, não teria se dedicado tanto a essa carreira, ainda mais por um motivo tão infundado.

Seu pai era homem poucas palavras — engasgou-se com uma macaxeira quente e queimou a garganta — pescava camarões e cuidava delicadamente de sua própria barba rala todas as manhãs. Gostava de ficar escondido, observando as crianças que brincavam em seu barco e depois aparecer de surpresa para ser rabugento com elas. Certa vez, uma das crianças perguntou para outra:

— Por que ele é assim tão chato?

A outra respondeu:

— Ouvi meus pais dizerem que foi por causa de chifre.

— Como assim? Foi atacado por um animal? Insistiu a primeira:

— Deve ter sido…respondeu a segunda.

Sua mãe era uma mulher fora dos padrões, pois apreciava assistir futebol e detestava cozinhar. Contava que a última vez que tentou fazer uma salada de ovos, caiu e quebrou o dedão do pé. Porém, amava costurar e se perdia, constantemente, no vai-e-vem das agulhas. Esse desligamento do mundo era tanto, mas tanto, que às vezes não ouvia nada que o filho único e o marido diziam. De vez em quando, Luque gritava:

— Oh! velha surda.

Ela, rapidamente, levantava-se e tentava, com a agulha à mão, espetar o garoto, sem dó. É claro que a agulha nunca o acertava, ele ria da sorte e ela dizia:

— Menino azarento, me respeita!

Certo dia, após seu aniversário de 16 anos, a mãe fez um convite que o surpreendeu:

— A feira do botão está na cidade, vamos lá?

Nunca havia escutado falar da tal feira, mas imaginou que, por sua mãe gostar de futebol e saber que ele também nutre tal paixão, estava ela convidando-o a um lugar incrível, cheio de botões para jogadores e jogadores de futebol de mesa. Subiu as escadas com pressa, pegou uma caneta, um álbum de figurinhas — caso encontrasse seu ídolo, João Botão — e partiu com sua mãe mostrando um sorriso escancarado.

Chegando lá, estranhou a presença de tantas mulheres, olhou para as barracas de venda, procurou botões e mesas, mas só encontrara linhas, agulhas e… botões. Quando se deu conta que, na verdade, estava em uma feira de costureiras, ficou dez segundos encarando o céu e perguntando a Deus porque houvera permitido tantas armadilhas na língua portuguesa. Pela primeira vez na vida, Luque se sentiu azarado.

Passava das três da tarde e o tédio do rapaz, por estar ali, transbordava. Ele ouvia o assobiar do vento enquanto observava as moças. Quando começou a chover, ele correu para a barraca mais próxima e lá sentou-se no chão. Luque parecia alheio a tudo que acontecia naquela feira, mas era todo atenção a certa morena que passava.

A morena era bonita, tinha talvez uns 15 anos e gostava de costurar botões em cartolinas — dizia que costurar em panos era muito fácil e preferia o desafio da dura cartolina. Andava pela casa com duas meias em cada pé e odiava sentir a brisa em seus cabelos longos. Isso dava vontade de cortá-los.

Luque perguntou:

— Ei, me diz seu nome?

— Meu nome é Zilda Camila, mas pode me chamar de Zica.

Ele não gostou muito do nome dela e achou que seria até uma compensação pela beleza que tanto ele admirava. Aconteceu que depois daquele dia os dois não desgrudavam mais e respiravam para balançar as mãos dadas. A mãe do rapaz jurava que ele jamais se casaria com “aquela”; já a moça, não tinha mãe nem pai e vivia com a avó caduca, já muito idosa.

Passaram-se dois anos e a revolta da mãe não dera em nada. Luque, agora tinha certeza que era o rapaz mais sortudo do mundo e amava Zica com cada canto do seu cérebro e coração. O casamento deles virou manchete na língua do povo e o seu terno tinha os botões que Zica comprou no dia em que se conheceram.

Depois de dois meses do casamento, a mãe de Luque, finalmente, sentia alegria em seu coração. Conformara-se com a situação e até passava algumas tardes conversando com a nora. Entretanto, o casal, que era só amor, passou a brigar todos os dias. Zica era mulher complicada. Dizia Luque que as vezes ela deixava os fios de cabelo dentro da sopa e numa outra vez fingiu afogamento numa piscina rasa. Os rumores na cidade era que o relacionamento deles estava por um fio.

Certo dia, Zica não aguentou mais aquela vida e esperou a madrugada chegar para pegar o primeiro ônibus que viesse e sair dali para bem longe. Antes de sair, ainda teve tempo para escrever um bilhete para o marido.

Era domingo de manhã quando Luque estava lendo o bilhete de despedida.

“Vou embora, pois você não me merece, mas como o amei, deixo algumas verdades. Seus olhos não são o motivo da sua sorte. Quando você era criança, sua mãe pagava ao moleque que você apostava para correr mais rápido. Ela também fraudou as leis da loteria para que ganhasse. E ainda, ela nunca quis espetar você com agulha; mais: ela levou você para a feira a fim de que me conhecesse e para finalizar: você só é bonito porque ela traiu seu pai com um estrangeiro. Você não tem sorte, o que você tem é uma mãe.

Muito abalado, saiu em disparada ao encontro de sua mãe. Não estava triste com a partida da mulher. Agora, ele só queria esclarecer o que aquela carta dizia. Estava, sim, indignado. Sua vida inteira havia sido uma mentira. Chegou em casa, bateu na porta com toda força que tinha. A mãe abriu assustada, arregalou os olhos e disse:

— O que é isso, menino?

Ele não respondeu nada. Muito ofegante, entrou, olhou para dentro de casa e viu, sentado, bem acomodado no sofá da sala de estar, um gringo.

Escrito por: Viviane Arimatea

Revisado por: Estênio Matos

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