Primeira carta

Querido Diário,

Em 2017, faz dez anos que eu não bebo refrigerante. Devemos considerar, claro, situações em que fui “enganada” nesse período e bebi drinques com refrigerante no preparo e uma certa água gaseificada com sabor que chegou ao mercado prometendo não ser refrigerante, mas era. Há dez anos, tomei essa decisão por motivos de saúde, porque não fazia muita diferença mesmo, já que sempre preferi sucos, e, confesso, porque era radical. Na época, eu era mais “tudo ou nada” do que sou hoje. Não que não continue sendo 8 ou 80. A verdade é que nunca gostei de gente morna, situações triviais, comida insossa e sonhos medíocres. Mas a gente, às vezes, se acostuma.

Você deve estar se perguntando, Querido Diário, por que eu estou te contando essas coisas agora. Eu, que sou a rainha das agendas de papel, nunca tive um diário. Um, assim, para contar tudo de tudo? Nunca tive. No máximo, rascunhei uma ou duas páginas de um momento da vida e deixei para lá. Pensava na permanência da escrita como uma espécie de prisão. Tinha um pé atrás com a possibilidade de produzir registros imutáveis. Hoje, escrever é sinônimo de liberdade. Poder contar, dividir, relatar, inventar, modificar, criar, colocar para fora, dar forma a pensamentos e sentimentos é libertar e ser livre. Sim, fui de um extremo ao outro. É a vida, a gente muda mesmo. Com os anos, eu mudei, me acostumei, mas sei que a minha essência inconformada estava em mim. Eu só tinha me esquecido de quem eu era e, assumir isso, foi o gatilho para perceber que tinha mudado. A questão é que levei tempo para achar esse gatilho.

Na virada de 2015 para 2016, resolvi fazer uma lista de resoluções para o novo ano. Era a primeira vez que fazia algo do tipo. Até então, o mais perto que eu tinha chegado disso era uma meta estabelecida um ano antes: parar de ler horóscopos. Eu adoro conversar sobre signos, mas as previsões diárias, de alguma forma, não faziam — e continuam sem fazer — sentido para mim. Como esse objetivo foi alcançado com facilidade, resolvi ser mais ambiciosa. Escrevi algumas ideias em um papel, sem me preocupar com a quantidade. A maioria tinha mais a ver com mudanças de comportamento do que com metas objetivas e realizações. Isso é ruim? Não necessariamente. Mas passou o ano me incomodando e só agora, em meados de janeiro, entendi a origem desse incômodo. Obrigada pela ajuda nisso, Alice! (Um dia eu falo sobre Alice.)

Coincidentemente, poucos dias depois da minha iluminação pessoal, eu abri uma carta da Anna Vitória do início do mês — “Como ser alguém” — que tinha muito a ver com o meu momento. (Em outro dia falo sobre as news fantásticas que eu assino.)

Fazer resoluções de ano novo é um baita exercício de vulnerabilidade, porque estabelecer metas é assumir que a gente QUER alguma coisa; encarar nossos desejos nos olhos é, de certa forma, PEDIR por algo, e tudo isso nos expõe à possibilidade do fracasso e eu tenho um medo paralisante de fracassar.

Eu também tenho esse medo, Querido Diário. Meu irmão, que é meu oráculo da vida, vive dizendo que eu preciso parar de me cobrar muito e R-E-L-A-X-A-R. Entre outras coisas, foi para me ajudar com isso — e também porque eu acho que é a palavra mais bonita da Língua Portuguesa — que eu tatuei “coragem” no corpo, no ano passado. E, veja, um desejo tão meu, de tanto tempo, algo que eu queria muito, não estava entre as minhas resoluções de 2016. Resolvi, então, rever as metas que eu tinha escolhido e achei-as vazias, pouco audaciosas, pouco apaixonadas, pouco honestas. Senti como se eu estivesse dizendo ali que não acreditava em mim, que a zona de conforto estava boa e só precisava de alguns ajustes.

Hoje eu percebo que não queria colocar minhas qualidades e fraquezas à prova, por isso, escolhi o que pensava ser o caminho mais seguro. No entanto, é preciso ser vulnerável, é preciso subir o próximo degrau — mesmo que ele te leve mais alto e você tenha medo de altura — , é preciso esticar o elástico até o limite da capacidade dele. Só assim a gente vai mais longe, conquista mais. Brené Brown, em uma palestra do TED, fala muito do que a gente precisa saber sobre o poder da vulnerabilidade. Vale assistir porque, além de tudo, ela é engraçada!

Sem querer, eu fui muito vulnerável em 2016. E isso me jogou para frente. Embora eu tenha tentando sufocar minha vulnerabilidade — com fracas resoluções, por exemplo — , alcancei objetivos muito importantes para mim e eles só vieram quando eu não estava protegida dentro de uma redoma, mas encarando o mundo e agindo. Tomei algumas porradas, na cabeça, claro, mas não vejo mal nisso. Sair da casa do papai e bancar um lugar “meu”, divido com uma amiga não foi fácil, mas foi, de longe, o que de mais gratificante eu realizei no ano passado. E tudo o que veio na soleira dessa mudança renderia textos para publicar aqui até dezembro. Talvez mais.

Por falar nisso, estarei mais vezes aqui no Medium nesse ano. Vou publicar dois textos por mês, ficcionais ou não. Está na lista de resoluções para 2017. Uma lista mais objetiva, sincera e desafiadora. Uma lista mais “participar de uma corrida de dez quilômetros até o fim do ano — é possível! — e continuar no pilates” e menos “praticar mais exercícios físicos”. Você, Diário, pretendo visitar, pelo menos, uma vez a cada dois meses, para te contar o que tenho feito e conquistado. Até março!

Com carinho, Vivi.