Um ano da vida

Estava frio na rua. Lisa apressou o passo, queria era chegar logo em casa, tirar as galochas, jogar o casaco em cima da cama e correr para o banheiro. Andou mais cinco minutos, concentrada para não escorregar na neve acumulada na calçada, e parou na porta de casa. Queria morar mais perto do Centro. Por lá, a neve não acumula nunca, em lugar nenhum, nem nos cantinhos mais reclusos do passeio. Os turistas precisam de uma cidade “caminhável”, afinal.

Colocou apressada a chave na porta, entrou, largou a bolsa no sofá e cumpriu o ritual que tinha planejado. Enquanto a banheira enchia, ligou o aquecedor. Devia estar fazendo quantos graus lá fora? Três? Dois? A casa ainda guardava o frio insistente de um dia inteiro. Esquentou um pouco de leite e levou a caneca favorita para o banheiro. Antes, deu uma paradinha na cômoda, colocou a playlist de R&B farvorita para tocar e conectou o celular às caixinhas de som. Sentou-se na borda da banheira, que estava meio cheia. Ou seria meio vazia? Não estava com saco para essas questões existenciais. Tomou um gole do leite com uma pitada de canela e adoçado com mel. Mania de criança, isso. A mãe dizia que era um abraço em forma de bebida. Lisa sentiu uma onda de aconchego percorrer seu corpo.

Fechou a torneira, colocou a mão na água. A temperatura estava ótima. Apoiou a caneca por ali e entrou na banheira. 31 de dezembro de 2016. Olhou para o relógio parado na parede à sua frente. Queria que o tempo estivesse mesmo suspenso. Depois de um ano de tanta correria, uns minutos a mais agora cairiam, para refletir com calma antes de enfrentar o frio lá fora de novo, encontrar os amigos, Beto, a neve, a festa. Lembrou-se da última virada de ano e de quanta coisa acontecera desde então. Para Lisa, 2016 começou com grandes expectativas. Tinha se planejado muito para que tudo desse certo. E deu, mas não da forma como ela planejou.

Lisa deu mais um gole no leite e mergulhou. Fechou forte os olhos, prendeu a respiração e sentiu os cabelos dançando ao redor do rosto. Há 366 dias, ela estava naquela festa no litoral paulista, com os mesmos amigos, com Beto, pulando sete ondas na praia, dançando, tomando todo champagne possível, preparada para 2016. E, então, veio o dia 2, como outro qualquer, mas com aquela notícia que ela queria esquecer. Levantou a cabeça da água, puxou bastante ar e mergulhou de novo. Por que a vida, às vezes, não cumpre o combinado? Somos nós que esquecemos de combinar com ela todos os detalhes? Ou ela simplesmente é mimada demais para seguir os planos dos outros? Aquela foi uma baita rasteira. Tomou fôlego novamente e ficou na superfície.

Era incrível pensar que há menos de um ano ela achou que a vida estava destruída, que todos os seus sonhos tinham ido por água abaixo e, agora, surpreendentemente, estava ali, viva, apenas com pequenas cicatrizes daquele tombo do qual nunca iria se esquecer. Caiu outras vezes em 2016, nenhuma queda tão marcante quanto a primeira, mas muitas machucaram. Mesmo assim, seguiu adiante, acreditou em cada uma das expectativas que tinha alimentado e que carregava dentro do peito. Vieram fevereiro, março, abril, o curso novo, as resoluções cumpridas no primeiro semestre, a fé inabalável em si mesma e no que o mundo tinha reservado para ela.

Maio, junho, julho, a saúde em dia, o carro finalmente vendido, a grana guardada na poupança, aquela festa louca e maravilhosa com a galera, a documentação para a mudança. Agosto, o mês mais especial, o que passou mais rápido, o que vai ser lembrado para sempre como aquele em que ela foi morar no Brooklyn. Da janela da casa nova, se esticasse bem o corpo inteiro, via uma pontinha do Park Slope. Impossível estar mais feliz. E ainda tinha setembro, outubro e novembro. Mil saudades para contornar, uma em especial. Horas de ligação no Skype, cartões postais para lá e para cá, uma carta inesperada na noite do Dia de Ação de Graças, uma contagem regressiva que parecia infinita. Isso sem falar do frio na barriga no primeiro dia de aula, do desespero em busca de um emprego qualquer quer fosse, dos tombos longe da família, das fotos, dos hambúrgueres e dos M&M’s de todas as cores.

Lisa colocou a cabeça para fora da banheira para espiar a hora no relógio digital que fica em cima da mesa de cabeceira. Não queria se atrasar. Levantou, soltou a tampa do ralo para que a água pudesse escorrer e tomou uma ducha rápida para despertar e voltar ao sonho real. Dezembro voou, foi lindo, trouxe o frio, a paisagem branca, o conto de fadas que ela sempre imaginou.

Ao ouvir a campainha, ela vestiu o roupão apressadamente e correu para abrir. Já sabia quem era. Beto estava de tênis, jeans escuro, sobretudo marrom, cachecol, cabelo penteado para o lado. Carregava uma garrafa de champagne para a meia-noite. Deu um abraço nela, um beijo demorado e levou-a para o quarto. Despediram-se de 2016 com calma, aproveitando cada segundo que passava. Vestiram-se. Ela escolheu a legging preta mais confortável do armário, blusa e casaco novos e brancos. A bota caramelo de sempre, quentinha. Gorro, luvas, cachecol, estava pronta. Eram oito da noite quando pegaram o metrô para encontrar os amigos que estavam hospedados perto da Times Square. Lisa apertou forte a mão de Beto e sentiu-se agradecida pela vida. Mimada ou não, até que ela tinha sido legal naquele ano.

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