Uma surpresa das galáxias

Eu nunca tinha sentido queimar sobre a minha pele a luz própria de outra pessoa. Sim, eu sei o que ela significa, eu sei identificar, eu sei dizer com certa facilidade quem tem, quem não tem e quem sabe usar luz artificial com maestria em situações de blefe. Eu sei bastante. Mas, até uma certa quarta-feira de lua crescente, não sabia como se sentia quem era ofuscado pela luz própria alheia.

Não foi de propósito. De jeito nenhum. Ele falou comigo, foi simpático, como de costume, e seguiu. Alguns minutos depois, voltou e resolveu ficar. Apresentei os dois. Em poucas frases dele, eu fui à nocaute, beijei a lona. Diante do incontornável, aproveitei a maciez do sofá e me encolhi na posição mais confortável para observar. Qualquer um teria se sentido preterido, mas, verdade seja dita, era mais fácil ficar maravilhado.

Ela, que antes dividia comigo reflexões sobre a notícia do dia, delicadamente descruzou as pernas e tornou a cruzá-las, dessa vez, na direção em que ele estava sentado. Sem esforço, apenas expondo suas próprias ideias e dúvidas - aliás, como ele consegue ser tão seguro mesmo com dúvidas? -, ele dominou o salão. Literalmente. Um homem que estava em outra mesa, vendo aquele cometa luminoso em ação, pegou seu jornal e sem cerimônia alguma ocupou a cadeira vazia ao lado dele. Cometas não passam sempre pelo céu, não é mesmo?

Uma hora de conversa passou como se fossem dez minutos. O tempo, essa dimensão misteriosa que cura tudo, se dobrou àquele brilho. Educadamente, ele se levantou e disse que precisava ir embora para não perder o ônibus. Nós fomos atrás, tínhamos mais o que fazer. Eu queria guardar na memória todos os segundos daquele acontecimento, talvez absorver algo que me pudesse ser útil: a inflexão da voz, o jeito de mexer as mãos, a virada de cabeça. Minha pele ainda queimava, entre a vergonha e o conformismo por não ter sido capaz de manter meu espaço.

Há algum tempo trabalho nesse texto. Penso que escrever pode ser uma via para impressioná-la, como ele fez. Ando treinando oratória, mas não tenho obtido muito progresso, além disso, sei lá quando vou ter oportunidade de ter a atenção dela em uma conversa só nossa novamente. De qualquer forma, só queria dizer que mesmo não sendo ele quero ser o melhor para ela. Talvez ela veja graça na forma como eu descrevo aquele dia e minha própria reação. Ou a reação dela. Pode ser que enxergue a sinceridade como uma virtude.

Outro dia, enquanto eu estava às voltas com minha criação, ele me chamou para dizer que tinha conseguido a transferência que queria. Vai embora em um mês. Fiquei satisfeito e decidi entregar a carta, finalmente. O caminho estava livre. Ela leu bem na minha frente, riu em alguns momentos e ficou séria quando chegou ao final. Levantou os olhos e me disse: "Nós vamos morar juntos, eu também estou indo embora". Devolveu-me o pedaço de papel e com um abraço meio sem graça se despediu.

Meses depois, recebi um postal dele, de quem, afinal de contas, eu precisava admitir que gostava. Dizia o seguinte: "Fiquei devendo um agradecimento a você, meu amigo. Naquele dia em que me apresentou à Lúcia foi como se algo raro tivesse acontecido, como a passagem de um cometa! Você mudou nossas vidas. Venha nos visitar!". Com a ajuda de um ímã, coloquei o cartão na porta da geladeira e prometi para mim mesmo que nunca mais sairia de casa em dias de fenômenos astronômicos.