Falta de propósito — fluxo de consciência #01

Aprece uma vontade louca de fazer alguma coisa e, no segundo seguinte, ela desaparece. Perde totalmente o brilho incrível que tinha um instante atrás. Às vezes, a vontade é tão forte que leva ao início de uma ação concreta. Uma vez iniciado o projeto, vem uma total desolação, uma sensação de falta de propósito. Logo eu, que sempre lutei racionalmente contra a ideia de que tudo precisa de um propósito.

O verbo, a palavra, a comunicação é o meu caminho principal para tudo na vida. Às vezes, a dor e a agonia existenciais perfuram com tanta violência a minha alma, que é preciso escrever. Mas, novamente, surge a maldita falta de propósito, paralisante, e me deixa imóvel.

“Pra quê?” — minha alma se pergunta. É sempre assim. Pra quê escrever? Vai ficar tudo aí. Nem você mesma vai ter coragem de ler depois.

Quando penso em me arrumar e ficar, bonita: pra quê?

Quando penso em sair e dar uma volta pra sair da ansiedade e da angústia: pra quê?

Quando penso em dar um jeito da minha vida: pra quê?

No fim das contas, só vale a pena mesmo ficar olhando para o teto e esperar a vida passar. É a única coisa para a qual encontro sentido. Às vezes, vem uma vontade de acabar com a vida. Isso também faz sentido.

Não há sequer tristeza. Há um sentimento de insuportabilidade em continuar vivendo. É uma sensação de sufoco, quase não dá para respirar por estar presa à existência. Sair de casa por obrigações cotidianas, às vezes, me devolve o ar. Estar imersa em algum entretenimento barato, alivia a sensação de desespero.

Antes, dormir também era uma forma de alívio. Mas agora, dormir também é um suplício, um obstáculo a ser vencido. Quando chega a hora de dormir, chegou o maior tormento do dia.

A falta de propósito tomou conta dos meus dias, dos meus pensamentos. Sinto como se ela sempre tivesse estado aqui, mudando junto comigo, mas sempre oprimindo, me tirando o ar, o chão, numa tortura arrastada. Arrasta consigo minha juventude, meus desejos, sonhos, vontade, prazeres.