Sobre o uso da vírgula

Meu professor de português do curso para a magistratura estava ensinando sobre o uso da vírgula para separar termos intercalados, ou seja, para separar termos da frase que sejam “um a mais”: vocativo, apostos, etc.

Para exemplificar, o professor citou o livro “uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” de Clarice Lispector.

A história inicia-se com uma vírgula e termina com “e Ulisses falou:”. Quem leu o livro e não se deu conta do porquê disso, pensa que o livro tem uma continuação. Na verdade, a vírgula e os dois pontos fazem parte da narrativa.

Com efeito, a personagem é uma mulher apaixonada por Ulisses, o qual é um cafajeste: não liga para ela, trata mal, dá em cima das amigas dela, enfim, não vale a comida que come. Lori sabe disso, mas não consegue tirá-lo de dentro de si mesmo. Por isso, está sempre triste e desanimada.

Um dia, ao preparar uma comida especial para esperar Ulisses, como ele não foi, ela passa a comê-la sozinha. Nisso, se dá conta de como é bom estar na própria companhia, degustando aquele jantar.

Em seguida, ela compra um vinho pensando em Ulisses. Como ele nunca aparece para tomar com ela, Lori experimenta-o sozinha. Sente-se, então, muito satisfeita com o vinho e com o momento.

Adiante, a personagem resolve arrumar seu guarda-roupa, onde encontra um vestido vermelho muito lindo, que nunca usará por estar acima do peso. Nisso, resolve fazer uma dieta.

Por fim, Lori vai ao cabeleireiro e fica muito satisfeita consigo mesma ao descobrir o prazer em estar na própria companhia e passa a pensar muito pouco em Ulisses.

A mudança é tão grande que, onde quer que vá, as pessoas notam que está mais bonita e feliz.

Tudo ia muito bem quando Ulisses resolve aparecer: ele liga e convida para jantar em um restaurante que Lori ainda não conhecia e se oferece para ir buscá-la, como fazia anteriormente.

Nesse momento, Lori aceita o convite para ir jantar, porém, diz que não é necessário ir buscá-la, pois o encontrará lá.

No dia do jantar, Lori vai rindo todo o caminho até o restaurante, pensando “ah mas ele nem vai ir, mas tudo bem, vou jantar num ótimo restaurante, vou aproveitar a noite”.

Ao chegar no local, Ulisses está sentando ao fundo, razão pela qual, enquanto caminha, a mulher chama a atenção dos clientes: todos viram a cabeça para vê-la passar.

Ulisses está boquiaberto e não reconhece a mulher que conhecia e, quando Lori senta, fala: — como você mudou! Está deslumbrante! O que você fez?

Lori responde: — andei arrumando meu guarda-roupa. ;-)

E nisso Ulisses falou:

Terminou a história.

Por que?

Porque Ulisses não é nem o começo nem o fim da história de Lori. Ele é apenas uma intercalação na vida dela. Não interessa mais o que ele vai dizer, pois, independe do que aconteça, a personagem já descobriu o prazer de ser ela mesma.

Por isso o uso da vírgula no início e de dois pontos no fim.

Gostei tanto desse exemplo que estou lendo o livro e recomendo!

Viva o prazer de sermos quem somos!!!

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