viviane eneida machado
Nov 5 · 3 min read

interrompa uma mulher negra hoje.

pensei sobre isso o dia todo. o dia todo mesmo. quantas vezes eu fui interrompida hoje? muitas. perdi o fio da meada da minha argumentação, quatro vezes. por quatro vezes meu raciocínio de pessoa ansiosa e completamente insegura foi interrompido e tive que reconfigurar toda a retórica para a situação. pedi um minuto, duas vezes. é muito fácil interromper uma mulher negra.

desde muito cedo existem ferramentas que impedem até mesmo meninas negras de falarem em sala de aula, por exemplo. mesmo se a gente souber qual a resposta certa da questão que o professor está pedindo somos o silêncio da sala porque quando notam que estamos ali é aquele grande inferno de ser chamada de “palito de fósforo queimado”, “michael jackson” ou “saco de lixo”, quem nunca?

existem estruturas racistas, sexistas e misóginas; esse tipo de debate NÃO PODE passar longe de questões de gênero e raça. nada é tão isolado assim, nem mesmo o umbigo sagrado e ungido daqueles que se sentem no direito de encontrar um ponto de comodismo numas rotinas massacrantes e impróprias para a vida. 40 horas semanais não permitem reflexões. parece que ninguém encontra tempo para a tal da autocrítica, essa palavra tão utilizada pela esquerda down-high-society (utilizando aqui um termo acessível para este núcleo de gente que ama mostrar a habilidade bilíngue), pouco respeitada, pouco feita. falta práxis, disseram os marxistas.

mas e aí? cadê sua unidade dialética entre a teoria e a prática quando você não pensa (literalmente) duas vezes antes de cortar a fala de uma mulher negra?

cortar a fala é silenciar, é tirar a voz é o mesmo que dizer NÃO QUERO TE OUVIR. não querer ouvir é violento. mulheres negras se não escutam ninguém são arrogantes, mesquinhas, metidas, nariz em pé.

mulheres negras se são reservadas não são apenas reservadas, são arrogantes, mesquinhas, metidas.

não existe o direito de ser algo diferente da tia Anastácia personificada na mulher no século XXI que dá conta de tudo, que tem jornada dupla NÃO REMUNERADA, que tem que ser dócil mesmo quando sente raiva e ai da mulher negra que ousar expressar que sente raiva, vai ser a raivosa pra sempre. não existem saídas. não existe escuta.

não existe validação de subjetividade.

o racismo só aceita as mulheres negras que performam docilidade e submissão, só aceita as mulheres negras que se doam, ficam exaustas pelo bem-estar do outro e nega pensar em si mesma. vale lembrar que o racismo é esse sistema que desumanizou, estuprou, matou, silenciou por muitos anos as minhas ancestrais e hoje quando eu digo “só um minuto, não terminei de falar” o racismo me fere ainda mais, porque são nesses pedidos, de respeito básico e escuta ativa, que fica evidente o quão destruidor pode ser para uma pessoa negra esse cinismo de negação do próprio racismo de absolutamente todas as pessoas brancas que numa convivência básica e superficial não enxergam as estruturas que alimentam.

toda raiva justa ou ódio estratégico que eu sinto nesse momento é o que me move para que a cada interrupção eu possa fortalecer meu pensamento, enquanto mulher negra, nessa sociedade cruelmente racista, classista, misógina.

e eu não sou e nem serei o que o racismo espera de mim; a dócil mulher negra, con seus bolinhos de chuva e seus braços sempre abertos para um caloroso acolhimento.

e eu? quem vai me acolher?

ninguém vai fazer de mim a tia anastácia contemporânea. podem fazer o julgamento, podem colocar espinhos como metáfora de agressividade, podem colocar grossa como adjetivo, esnobe, metida. o que eu faço com isso?

peço meu tempo de fala. não preciso do “sim” de sinhá nenhuma para dizer o que eu acho que precisa ser dito. minha fala, minha subjetividade existem e vão continuar existindo mesmo com o olhar assustado de quem não precisa sentir raiva de tudo a todo momento e pode gentilmente cometer grosserias e ainda assim será tida como “mulher forte de opinião”. eu sou uma mulher forte de opinião e se o que fazem com isso é chamar de raiva, comportamento radical, que chamem. não sou a pessoa vitimada, esse lugar não é pra mim.

eu sei levantar a voz e se for preciso, farei isso como quem diz, esse é meu espaço e eu ocupo esse lugar. mesmo que seja na base do grito.

chega desse não-lugar. esse lugar não é meu. não é de nenhuma de nós.

interrompa uma mulher negra hoje e ela vai dizer ESPERA, É MINHA VEZ DE FALAR AGORA.

linguagem é poder.

    viviane eneida machado

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    tirando conclusões precipitadas sempre que possível

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